quinta-feira, 29 de março de 2012

madrugada

(cantando para não esquecer a melodia)
Madrugada
Deita e rola
Madrugada
Não tem hora

Pesando sem balança
A madrugada dança
Apaga a lembrança
É hora de mudança

Madrugada
não demora
madrugada
Também chora

Não teima, criança
Que qualquer semelhança
Com aquela fala mansa
É mera abundância

Madrugada
Me ignora
Madrugada
Foi-se embora

domingo, 25 de março de 2012

chupeta

Um dia minha mãe falou:
"encontrei uma barata na sua chupeta"
era mentira, mas só a adolescência me mostrou isso
e naquele triste dia de criança
eu tive que jogar a minha chupeta no lixo.

Com a chupeta na mão fechada
e a lata de lixo embaixo
eu chorava com medo de
abrir a mão.

Até hoje, por vezes, me sinto assim:
choro, chupeta, barata,
mão fechada e a lata de lixo.

Esse estranho momento na memória
onde eu negava o inevitável
me ensinou que quanto mais tempo
com a mão fechada
mais longo o choro.

sexta-feira, 23 de março de 2012

como máquina
tendo por vezes
a dar defeitos

defeitos de fábrica
ou pelo uso constante

sem garantia alguma
a vida gasta as peças,
correia, corda, vela,
dessa engrenagem
aberta
que chamam coração

domingo, 18 de março de 2012

domingo

tem dias que algo falta
um cheiro, uma voz
uma força qualquer
dá vontade de olhar pro lado
como criança que inventa amigo.

mas não ta lá também

fico quieta reparando no mundo:
carros, cores, pratos
e as telas luminosas
(a pipoca é comida com cuidado
no escuro)

a vista chinesa recorta a zona sul
aquele vestido preto
tem um antigo corte da moda
corta para cena 1 plano 5:
ela, no computador, lembra
que não pode pensar nele,
e escreve:
"até as coisas realmente bonitas acabam"
e vai dormir.

às vezes, é preciso ver o domingo de longe

sábado, 3 de março de 2012

ossos

de todas as partes do corpo
eu acho que a ausência
se sente nos ossos

ossos mantém de pé o que é vivo em nós
são o que sobrevive à morte.
a ausência é exatamente isso
sustentar em pé o que ainda vive

uma vez, num romance cubano,
li que o português
era a língua sem ossos.
nunca entendi direito.
mas hoje acho que falar português
é a vida pura que se carrega sem forma e sozinha.
é o avesso da ausência
é o remédio mais eficaz
talvez o único
que conheço
contra a solidão da saudade

o silêncio
ecoa nos ossos