quinta-feira, 31 de maio de 2012

penso as vezes
num bom lugar
pra se morar
rede, céu, tapete
um lugar para encostar
o pé no chão

pode ser um bom filme
ou uma memória
tem gente que mora bem
num fusca 68
que nunca existiu.

moro todo dia
em heterolugares
(meu superpoder favorito
sempre foi o teletransporte)

moro num texto que leio
ou num desenho que me olha,
eles me desejam
tanto quanto eu a eles

moro todo dia
em heterotopias

utopia não é sonho nem mistério
nem uma coisa só
é apenas um lugar que te aponta
no mundo
e você só aponta de volta,
caracol e concha,
cafuné e colo

a grama que acabou de ser cortada
sente o meu cheiro de cama

terça-feira, 29 de maio de 2012

O calor tomou o meu corpo
e ardi em febre
40 graus por 3 dias
No Rio, 40 graus
chega a ser clichê
estamos acostumados aos calores
Coletivos
melhor mesmo
são os calores em par
Como afinidades que vêm
em pacotes, você disse
no dia em que nos encontramos
Foi o dia em que
não aprendemos o que era um
Estromatólito
(penso que essa palavra ficaria melhor
com um E na segunda sílaba, teria o som
de pedra extrema, lindo, como o nosso arpoador,
como o bojador em Pessoa)
foi nesse dia também que você
me carregou na minha bicicleta:
eu tentava não encostar
demais a cabeça no seu ombro
e percebia o quanto você
evitava beijar a minha testa.
acho bonito uma bicicleta para dois
daquelas coisas incríveis que
que só encontra seu significado
muito tempo depois: bicicletas foram
criadas para um dia se carregar moças
e nada mais.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

muito se perde
entre ensaiar
filmar e editar
poesias

escrevia de cabeça
quando apareceu
uma frase incrível

o poema estava garantido
com uma puta frase no final

Só que a minha memória
perdeu o seu verso

deve ter sido a cerveja do almoço
ou o sol do arpoador
no meio do dia
talvez, a terapia
que bagunça as minhas frases
e depois eu jogo tudo num armário
onde nunca mais consigo achar

tentei re-sentir o verso
fiz exatamente os mesmos passos
mas ele estava perdido
de nada adiantava procurar
no meu caderno

pela vitrine eu via
as pessoas andando
passando
pisando no meu verso
perdido na calçada

domingo, 20 de maio de 2012

Sonho com cores

Era um mesmo quadro fixo, onde nada acontecia, composto por objetos, todos na mesma cor. Mas, de uma hora pra outra, tudo mudava de cor, o mesmo quadro, em outras cores: laranja, vermelho, amarelo, verde-limão, roxo. Cores fortes, tipo anos 70. Depois, eu cozinhava e servia as minhas carências pra você. Também tinha carne assada com batatas no prato de porcelana em cima da toalha branca (adoro toalhas brancas). Sequei a mão no avental, estávamos na nossa cozinha branca dos anos 70. Olhávamos um para o outro por longos minutos. Tudo acontecia num grande silêncio eu não sustentei o olhar. É que entre um olhar e outro, na dúvida entre olhar para os olhos ou olhar para boca, senti você chupando as minhas verdades. Olhei para a janela. Branca como todo o resto. Olhei de volta e você não estava mais lá. A cadeira branca estava vazia e o prato vazio na mesa. Segui por um corredor-labirinto cor cobre da nossa casa nos anos 70. O meu reflexo brilhava fosco nas paredes metálicas. Um reflexo borrado que eu não conseguia não acompanhar; será que é ele que me segue ou sou eu que ando atrás dele?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

o radio tocava bons clichês

tinha um véu tapando a luz
e guardando as folhas
enquanto na mesa
lembrando os cadernos perdidos
estamos e não estamos.

os verdes vivos de plástico
os verdes pálidos de plantas
o verde-ardósia do chão,
amanda nunca disse não.

verdes, as paredes me diziam que
ainda estou para
pegar a estrada pra minas
e os nossos assuntos
verdes-capim-limão,
aos poucos se amorenaram
com duas colheres de mascavo

naquele restaurante
somos e não somos
entramos e não entramos

quinta-feira, 17 de maio de 2012

quando o passo do relógio
e o do corpo se encontram,
quando olhar a natureza
dá vontade de dançar
e encontramos largada
uma fresta do sol de maio
a única palavra possível
é a escrita
(palavra é um desenho
com letra que faz som
na cabeça)

FIM

quarta-feira, 16 de maio de 2012

silence

il fallait froid
l'année dernière
au mois de mai
comme aujourd'hui
ta presence distance
a chauffé mes jours
le vent, la pluie,
la fenêtre overt
et j'avais oublié
mes autres senses:
je voudrais voir tes mots,
seulement

les mots sont les plus
chaudes choses
que je connais
(c'est pour ça
qu'il fait froid
maintenant)

domingo, 13 de maio de 2012

o disco rodou rodou
(é como relaxar o pescoço
pro lado direito)
e eu fiquei olhando o som

a música encontrou meu corpo
deixado na sala
rasgou um pouco na hora de entrar
cicatriz em pele morena
fecha, mas deixa marca
algumas fazem desenhos bonitos
tatuagem que se ganha
afinal,
o excesso nunca deixa
a sala impunemente

terça-feira, 8 de maio de 2012

geladeira

Silêncio

Não temos paredes
na casa
e podemos nos ouvir.
fale baixo
enquanto arrumo os restos,
o gostar prismático
se espalha com a luz do sol
então, feche as cortinas
e tire a poeira.
Na hora de sair
tranque a porta com cuidado e rápido
pois os gatos podem
sair no seu rastro.
não se esqueça:
tem mousse de maracujá
na geladeira, coma
antes de virar o lado
do disco.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

coração não se dá
num anel dourado
nem numa fita cor de rosa.
coração é lugar de batalha
se perde, se rouba, se destrói
se conquista.
em tempos de paz
coração é mato solto
comprido, verde, pronto.
Livre,
mas com aquela beligerante
sensação
de ouvir de longe
passos invasores
que se aproximam.

domingo, 6 de maio de 2012

Sonhei que tocava uma música do Milton que eu não conhecia e isso me paralisava: eu tinha que saber que música era. Daí, eu me perdia procurando e nunca mais voltava do sonho. Acordei pensando que eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços. Ouvi Geraes, então, me perdi de novo, e nunca mais voltei.

terça-feira, 1 de maio de 2012

olhei os balões no céu
se afastando, virando ponto
e sumindo pra um lugar invisível.
balão é coisa bonita de se ver
parece brincadeira de criança
com fogo que faz voar.
o meu balão é rosa, de menina
o seu é azul, de guri.
hoje somos pontos, azul e rosa,
em camadas diferentes de ventos.
quem olha de longe um ponto azul
e outro rosa, distantes, sozinhos
só acha bonito, como passarinho no céu
ou avião que faz acrobacia.
O sol também desce no céu
como balão pousando,
e some dos nossos olhos.
Só quem sabe dos seus segredos
é aquela estrela que acabou de surgir
entre um ponto azul e outro rosa
num céu gigante.
ela também sabe da gente
e jura que não conta pra ninguém.
Nem pra quem só olha da terra
enquanto o céu acontece.