segunda-feira, 17 de setembro de 2012

cascatas de borrões
onde os sonhos
pegam sol

sapateamos pólen
enquanto o cheiro
de tinta nos move:

minha floresta tropical
pinta poemas na sua pele

toute petite figure

(sobre "toute petite figure" de Giacometti)
les yeux
son visage
la tête
tout
c'est petit
miniscule
mais cette
petite figure
m'est revillée
je suis entre elle
le museum est
chez elle
tout les hommes
toutes les femmes
sont entre elle
cette petite figure
est le monde
ou tout qu'on
puisse connaître.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

o Bento aprendeu a dançar.
Sozinho.
E gosta.

Se diverte com seu
próprio movimento de
rodar em volta de si
fico boba
me espelho na sua dança
sei que estou ali
sei que danço com ele
somos parecidos
mesmo sangue
mesma vontade
de recriar o mundo
com esses passos estranhos
ele sorri pra mim
como quem chama pra dançar

dança de criança
não segue o fluxo do ritmo
da música ou do canto
é um jeito de mexer
que faz poesia

não me disseram isso
mas garanto
por invencionice:
toda vez que uma criança
aprende a dançar
nasce uma estrela no céu

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sacerdócio

desenhei maria
e pensei em poemas concebidos
sem pecado
Santo Agostinho
El Greco
Antonio Vieira
o menino jesus de Caeiro
comunguei com eles
desenhei a freira
que queria ser

mais nova eu achava
que eram precisos terços
e hábitos para se chegar
até deus
eu queria
encontrar deus
quem sabe um dia
ir em missão
a algum lugar miserável
me doar inteira
e voltar a ver o clarão
que um dia em sonho
entrou pela minha janela

a freira que eu nunca
fui
pensa na mãe
somos todos órfãos
ligando os pontos
de um desenho de jornal
tantas marias no museu
tantos barrocos como eu
a freira que sempre fui
deixa os poemas
me escreverem
e as pinturas
me olharem
me doou
inteiramente
a imagens e palavras
e assim
na menina que sou,
encontro a freira
que posso
ser

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Genealogias

marionetes
engolem celulares
com corações dentro
com o mundo inteiro
daquele tamanho todo.
Dentro.
Na materialidade de um objeto
temos um mundo

Um copo que me bebe
Um traço que me risca
São os poemas que escrevem
as pessoas
o sexo que faz os amantes
o tempo não toma
não é tomado
apenas flui,
tempo.
Objetos são rastros, efeitos
excessos boiando em fluxos:
os efeitos são a única origem conhecida.

É preciso começar pelo fim.

(o poema pode também ser lido de baixo pra cima)