quinta-feira, 7 de abril de 2011

Susana

Susana tinha medo da morte e pensava consigo mesma, e quem não tem? É verdade, esse deve ser um medo tão comum que nem deveria contar. Mas num dia de outono começou a chover ao meio-dia. Susana pensava consigo mesma que chover ao meio-dia não era comum no Rio de Janeiro. No Rio chovia ou de manhã, ou no fim da tarde, ou à noite, ou de madrugada, pensava mais um pouco e repetia que chovia ou de manhã ou no fim da tarde, ou à noite ou de madrugada. Que estranha aquela chuva. Susana pegou seus óculos de grau e foi na janela olhar a chuva. Ao atrevessar a janela percebeu que seus óculos molharam com a chuva e que era melhor tirá-los. Pensou que a água se dá melhor no corpo da gente, nada entre nós e a chuva seria melhor, seria melhor um peito aberto para abraçar a chuva. Uma chuva ao meio-dia não causaria tantos estragos no trânsito era uma chuva complacente e merecia o seu abraço. Saiu de casa, dando duas voltas na chave, Susana sempre dava duas voltas na chave antes de sair, não sabia o porquê, simplesmente achava certo. Na rua assobiou "Singin' in the rain" porque não se atrevia a cantar, já ousava demais sem o guarda-chuva. Molhava-se, sem medo, sem medo de gripe ou outras doenças, nem parecia ela mesma, Susana, a professorinha da 4a séria do colégio Brigadeiro XXIX. Olhava para um vira-lata que também se molhava e não se preocupava com crianças e doenças e até mesmo a morte. Susana se viu momentaneamente naquele cachorro, ali assim, tão livre como ela naquela chuva. Pegar aquele cachorro e levá-lo para casa era uma maneira dela congelar para sempre aquele momento de rebeldia. A chuva parou e Susana voltou para casa. Era feriado. Ela deu duas voltas na chave para tracar novamente a porta, tirou as roupas molhadas e as jogou no tanque, o cachorro molhado ficou na área de serviço. E depois do banho, ela começou a preparar a aula para o dia seguinte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário