Nasci na época errada.
Deve ser essa preguiça imensa
que atrasou a minha vinda.
Cheguei num bonito dia de inverno
dum ano tarde demais.
Um dia o médico me examinou,
percebeu que o coração batia diferente
e diagnosticou: é um
prolapxo da válvula mitral.
um nome bonito pra dizer
que o coração batia em descompasso:
PRO-LA-PXO.
São duas batidas e um suspiro
nunca no mesmo ritmo,
como falar essa palavra
cada hora de um jeito.
O coração fora da sua época
bate nostálgico
procurando seu próprio som
às vezes encontra rima
em outras acha o tema,
entre tentativa e erro
amassa e desamassa
sem nunca achar o tom.
terça-feira, 24 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
clichês
eu queria um diário bonito, com um coração e um cadeado. Contaria meus segredos de menina, desenharia nomes, passaria um bom tempo olhando para o teto e construindo abismos acima da cabeça. Eu queria um mustang vermelho 87, jeans, óculos escuros, uma estrada longa, uma rádio tocando rock ruim da década de 70. E um batom vermelho, argolas, um tomara que caia rodado, um coque e a carteira embaixo do braço, olhos bem pintados. Colo todas essas imagens nas minhas paredes vazias. Há espaço. Olho bem devagar os clichês da minha alma. Recorto mais um: por-do-sol, goiabeira, pé descalço, cavalo no portão e um violão tocando toada. Banho de rio: recorta e cola. Banho de mar: recorta e cola. Bicicletas no aterro. Dormideiras fechando. Beijo de esquimó.
domingo, 15 de abril de 2012
Rosebud
Quero lançar um filme nos anos 40 sobre a minha vida. Dolores del Rio será eu. Uma história nostálgica que se passa no Rio atual: frescobol e biquini tomara que caia, mesas de bar, bicicletas, funk, soul, samba e forró num musical inédito.
Começa com um número de sapateado na lapa, sem instrumentos, sem canto, só vestido vermelho e sandália prata. Nada de poças d'água, a chuva é fina, é outono. Sonho acordado. Eu aperto os meus olhos fechados e relaxo. Volto a escrever o texto e tomar o chá de capim-limão. Olho a janela e chove fino, é outono. E rabisco um nome no papel.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
A paixão existe em planos detalhes. Metonímica. Como as melhores cenas de um filme que vão parar no youtube para serem vistas indefinidamente, cheias de links relacionados num looping infinito. Os sentidos são sentidos como nunca e a mente monta as melhores sequências, tanto de memórias vividas quanto imaginadas. Essas cenas prontas repetem na cabeça, geram prazer, se retroalimentam em seu próprio repertório, para mais uma vez repetir e encontrar prazer. A felicidade é o desejo de repetição, eu li quando era adolescente e entendi sem nunca ter me apaixonado. Se recuperar da paixão é obrigar o olhar, o ouvido, a pele a voltar ao plano geral, aos tempos mortos, e tentar criar um distanciamento com a nossa própria narrativa. Mais ainda, interromper o desejo de repetição, ou, na melhor das hipóteses, reconfigurá-lo. E por isso é tão difícil: o close é um desejo permanente dos nossos sentidos. Dizer não para esse apelo é quase negar a nossa própria existência.
domingo, 1 de abril de 2012
sonoridades
Em 20 tecnologias diferentes
nada acontece.
Nenhuma delas.
NADA.
Nem um bilhetinho idiota
deixado por engano.
Miramos máquinas
como quem espera algum
milagre sonoro:
dinheiro eu não sei, mas
barulhinhos eletrônicos
trazem felicidades.
Na verdade,
barulho e felicidade
sempre tiveram afinidade,
buzina, carteiro,
assovio, campainha.
O portão barulhento se abre
não mais que o sorriso
da moça sentada no sofá.
Sem percebermos, sonoridades
são viradas presentes
na história da gente.
Deus ex machina
restabelecendo a ordem
é você verdinho
piscando no gtalk.
quinta-feira, 29 de março de 2012
madrugada
(cantando para não esquecer a melodia)
Madrugada
Deita e rola
Madrugada
Não tem hora
Pesando sem balança
A madrugada dança
Apaga a lembrança
É hora de mudança
Madrugada
não demora
madrugada
Também chora
Não teima, criança
Que qualquer semelhança
Com aquela fala mansa
É mera abundância
Madrugada
Me ignora
Madrugada
Foi-se embora
Madrugada
Deita e rola
Madrugada
Não tem hora
Pesando sem balança
A madrugada dança
Apaga a lembrança
É hora de mudança
Madrugada
não demora
madrugada
Também chora
Não teima, criança
Que qualquer semelhança
Com aquela fala mansa
É mera abundância
Madrugada
Me ignora
Madrugada
Foi-se embora
domingo, 25 de março de 2012
chupeta
Um dia minha mãe falou:
"encontrei uma barata na sua chupeta"
era mentira, mas só a adolescência me mostrou isso
e naquele triste dia de criança
eu tive que jogar a minha chupeta no lixo.
Com a chupeta na mão fechada
e a lata de lixo embaixo
eu chorava com medo de
abrir a mão.
Até hoje, por vezes, me sinto assim:
choro, chupeta, barata,
mão fechada e a lata de lixo.
Esse estranho momento na memória
onde eu negava o inevitável
me ensinou que quanto mais tempo
com a mão fechada
mais longo o choro.
"encontrei uma barata na sua chupeta"
era mentira, mas só a adolescência me mostrou isso
e naquele triste dia de criança
eu tive que jogar a minha chupeta no lixo.
Com a chupeta na mão fechada
e a lata de lixo embaixo
eu chorava com medo de
abrir a mão.
Até hoje, por vezes, me sinto assim:
choro, chupeta, barata,
mão fechada e a lata de lixo.
Esse estranho momento na memória
onde eu negava o inevitável
me ensinou que quanto mais tempo
com a mão fechada
mais longo o choro.
sexta-feira, 23 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
domingo
tem dias que algo falta
um cheiro, uma voz
uma força qualquer
dá vontade de olhar pro lado
como criança que inventa amigo.
mas não ta lá também
fico quieta reparando no mundo:
carros, cores, pratos
e as telas luminosas
(a pipoca é comida com cuidado
no escuro)
a vista chinesa recorta a zona sul
aquele vestido preto
tem um antigo corte da moda
corta para cena 1 plano 5:
ela, no computador, lembra
que não pode pensar nele,
e escreve:
"até as coisas realmente bonitas acabam"
e vai dormir.
às vezes, é preciso ver o domingo de longe
um cheiro, uma voz
uma força qualquer
dá vontade de olhar pro lado
como criança que inventa amigo.
mas não ta lá também
fico quieta reparando no mundo:
carros, cores, pratos
e as telas luminosas
(a pipoca é comida com cuidado
no escuro)
a vista chinesa recorta a zona sul
aquele vestido preto
tem um antigo corte da moda
corta para cena 1 plano 5:
ela, no computador, lembra
que não pode pensar nele,
e escreve:
"até as coisas realmente bonitas acabam"
e vai dormir.
às vezes, é preciso ver o domingo de longe
sábado, 3 de março de 2012
ossos
de todas as partes do corpo
eu acho que a ausência
se sente nos ossos
ossos mantém de pé o que é vivo em nós
são o que sobrevive à morte.
a ausência é exatamente isso
sustentar em pé o que ainda vive
uma vez, num romance cubano,
li que o português
era a língua sem ossos.
nunca entendi direito.
mas hoje acho que falar português
é a vida pura que se carrega sem forma e sozinha.
é o avesso da ausência
é o remédio mais eficaz
talvez o único
que conheço
contra a solidão da saudade
o silêncio
ecoa nos ossos
eu acho que a ausência
se sente nos ossos
ossos mantém de pé o que é vivo em nós
são o que sobrevive à morte.
a ausência é exatamente isso
sustentar em pé o que ainda vive
uma vez, num romance cubano,
li que o português
era a língua sem ossos.
nunca entendi direito.
mas hoje acho que falar português
é a vida pura que se carrega sem forma e sozinha.
é o avesso da ausência
é o remédio mais eficaz
talvez o único
que conheço
contra a solidão da saudade
o silêncio
ecoa nos ossos
domingo, 5 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Solitude
De repente, Ivan se viu sozinho, em silêncio no escuro. Não estava triste nem com medo, apenas quieto. O silêncio fica mais à vontade na escuridão. Ivan, ao contrário do que normalmente fazia, resolveu continuar inerte para esticar aquele momento mais um pouco, ver até onde iria aquilo. E ficou. Quieto, pensando. Deve ter ficado assim até dormir e no dia seguinte, com o sol entrando pela janela, Ivan acordou outro. Era o mesmo Ivan de sempre, mas agora tinha um certo prazer indolente em estar só. Não contou a ninguém, não mudou a sua rotina, mas sempre que se encontrava sozinho, em silêncio no escuro, partilhava consigo mesmo aquele conforto inconfessável.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
quinta-feira, 9 de junho de 2011
asa nisi masa
Eu, Ele, Eu, Eu-Ele,
em corte seco,
enquanto invento uma memória:
o cheiro do quarto
do copo de café
do tapete lavado,
também estou lá.
Dois espelhos se miram
e me vejo espalhada
em telas:
olho para Ele
e infinitamente
me repito
em abismo.
em corte seco,
enquanto invento uma memória:
o cheiro do quarto
do copo de café
do tapete lavado,
também estou lá.
Dois espelhos se miram
e me vejo espalhada
em telas:
olho para Ele
e infinitamente
me repito
em abismo.
terça-feira, 7 de junho de 2011
ser ou estar
Em português temos a possibilidade de falar ser ou estar, em verbos diferentes, como coisas diferentes e eu sempre gostei disso. Parar o instante com um verbo nas outras línguas é impossível. Me lembra o portal de Zaratustra, que é das coisas mais linda que conheço e reproduzo aqui:
"Este longo corredor para trás: ele dura uma eternidade. E aquele outro corredor adiante é uma outra eternidade. Eles se contradizem, esses caminhos; eles se chocam frontalmente: e aqui nesse portal é onde eles se juntam. O nome do portal está escrito ali em cima: INSTANTE.
É como passar pelo portal a cada momento, portais e portais consecutivos: estou feliz, estou romântico, estou com fome, estou cansado, estou calma. Em outras línguas existe a não menos bela ambiguidade de que tudo que é não necessariamente será. Nós que passamos no portal, às vezes empurramos as coisas para o próximo portal, para o estatuto do estar, porque se as coisas são em português, elas são; sérias e definitivas.
Eu estou com saudade de escrever poesia.
"Este longo corredor para trás: ele dura uma eternidade. E aquele outro corredor adiante é uma outra eternidade. Eles se contradizem, esses caminhos; eles se chocam frontalmente: e aqui nesse portal é onde eles se juntam. O nome do portal está escrito ali em cima: INSTANTE.
É como passar pelo portal a cada momento, portais e portais consecutivos: estou feliz, estou romântico, estou com fome, estou cansado, estou calma. Em outras línguas existe a não menos bela ambiguidade de que tudo que é não necessariamente será. Nós que passamos no portal, às vezes empurramos as coisas para o próximo portal, para o estatuto do estar, porque se as coisas são em português, elas são; sérias e definitivas.
Eu estou com saudade de escrever poesia.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
ESTRANHO
Ser estranho não é uma condição, mas um estado, uma passagem, como uma rua escura em que você corre para passar rápido por ela. Afinal, o estranho é lento. Ele ainda está se adaptando e isso toma tempo. O estranho passa e volta. Você sobe no carrossel da estranheza e depois de um tempo ele para de rodar. Mas o estranho não é o outro, e sim, nós.
De estranho para estranho, nos cumprimentamos como iguais.
De estranho para estranho, nos cumprimentamos como iguais.
sábado, 14 de maio de 2011
πάντα ῥεῖ
Acordei com o seguinte pensamento:sístole e diástole, sístole e diástole. A princípio, esse pensamento me transtornou: por que será que se acorda pensando uma coisa dessas?
Por trazer, ao abrir dos olhos, elementos tão naturais esse pensar me parecia a mais estranha das ideias. Não satisfeito, o pensamento não foi embora e naquele instante-eternidade entre acordar e levantar continuei a pensar como se só existisse isso no mundo: sístole, diástole. Repeti para a minha cabeça e aos poucos eu dizia para o meu corpo a ordem do dia. E assim foi que eu comecei a acalmar, pensei que tudo flui, o sangue, o sono, as vontades, as manhãs. "Tudo é um fogo acendendo e apagando em medidas", sístole e diástole, sístole e diástole. Levantei calma e o meu dia fluiu tranquilo.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Aos nossos discos
Há algum tempo eu tento juntar os vinis espalhados pelas casas da família, pois, como é sabido, eu curto uma nostalgia, já na adolescência, eu escrevia diário para poder ler sobre o dia anterior com saudade. Quanto aos discos, o problema era o seguinte: minha avó querida estava com a vitrola e eu nunca conseguiria tirar qualquer coisa dela e os discos do meu pai, que eram a maioria, estavam em alguma casa dele que eu não sabia qual era. A vó Dorinha depois de um tempo acabou me devolvendo a vitrola, os discos do meu pai eu consegui pegar numa faxina logo após a obra na casa e por fim, ganhei um amplificador novo do meu padrinho para poder aproveitar o som. Enfim, ontem, dia das mães, juntei tudo para um final feliz. Bom, final? Na verdade, dei uma paradinha agora, mas estou no meio de uma grande bagunça e vários discos para guardar.
É que aquele aparelho que eu ganhei no meu aniversário de 10 anos para ouvir meus discos agora parece um imenso trambolho e para arrumar lugar no quarto tive que ficar rearrumando os livros, os DVDs, o aparellho de DVD, etc. A coleção dos Pensadores, por exemplo, voltou para o armário. E os discos, que se chamavam álbuns, provavelmente por conta disso, são grandes, de uma época em que as estantes tinham espaço e que as salas tinham estantes. Os discos da minha mãe estavam escondidos em cima do armário, muito limpos, foi fácil arrumar e tocar. Os meus discos estavam na casa da minha avó e era tanta porcaria que trouxe muito poucos, afinal, ninguém passou a infância nos anos 80 impunemente. Melhor, muito melhor mesmo era pegar os disco da vó: música cubana, trilhas instrumentais de cinema, robertos e erasmos. Os discos do meu pai só consegui pegar hoje. E como eles foram salvos das traças e estavam sem capas, me deram um pouco mais de trabalho. Nada que água, sabão e flanelas não estejam dando conta. Até agora, já consegui colocar a metade para tocar, nem que seja pelo menos uma faixa.
Eu escuto e vejo como o tempo passava diferente nessa época em que se via o disco rodar e o tamanho das faixas marcadas na bolacha. A música pesava nas mãos. Você fica mais de peito aberto com a obra como um todo, a fruição era e até hoje é diferente. Eu tenho a discografia do Caetano no meu computador e perdi a conta de quantas vezes eu já escutei as minhas favoritas, até porque elas estão também no meu celular. Mas só hoje eu consegui ouvir o "Muito" inteiro, sem pular as faixas. Só hoje também, eu entendi o que meu pai sempre falou sobre o barato de "Ca-já", porque hoje eu ouvi a música pela casa e não olhando para uma tela.
É curioso pensar que esses discos da minha vó, meus, da minha mãe e do meu pai que eu juntei assim, de repente, coisa que ficou separada por anos, cada um na sua, sem o menor nexo ou familiaridade estão dividindo a mesma estante sem nenhum pudor, promiscuidade total: Jon Secada e Ravel, Daniela Mercury e Lô, Supertramp e Trem da alegria.
Mas o melhor de tudo foi ver que como num jogo da memória, os iguais foram aparecendo. Acho que meus pais depois de se separarem acabaram se recapitalizando dos discos que ficaram com o outro e eu agora tenho dois "clube da esquina", dois "álibi" da bethânia, dois "dangerous" do michael jackson, dois "gerais" e por aí vai. Assim eu vejo que eles realmente tinham algumas coisas em comum, essas identidades, que as pessoas vêem em mim, vez ou outra, e eu desconheço. Agora eu tenho em dobro esses espelhos, para ver e ouvir sempre que eu quiser.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Essas distantes pessoas queridas
Ontem encontrei coisas que abomino: a superficialidade, o se achar melhor do que os outros, a intolerância, o preconceito, a crença de que só o dinheiro e o consumo ostensivo podem geram prazer, o lixo da indústria cultural como único bem imaterial. Estou irritada e triste até agora porque essas coisas que abomino, encontrei em pessoas queridas, que só estavam um pouco afastadas. Este texto é como um daqueles que eu escrevia em diários de anos atrás, escrevo para entender, desabafar e esquecer.
Não sei o que está havendo com o mundo e como indivíduos assim, que eu conheço desde sempre, que eram crianças amorosas e adolescentes alegres, viraram adultos tão pouco admiráveis. Que caminhos tomamos para em 8 anos seguirmos trajetórias e escolhas tão diferentes. Chegando em casa sem resposta e sem sono abri o livro que tinha acabado de chegar pelo correio, afinal, estava arrasada e poucas coisas me dão tanto prazer quanto abrir um livro novo que há tanto tempo eu quero ler. O livro é "Diferença e repetição" de Deleuze e, assim, comecei a desfrutar da minha noite.
Logo na introdução está lá: "se a repetição existe, ela exprime, ao mesmo tempo, uma singularidade contra o geral, uma universalidade contra o particular, um notável contra o ordinário, uma instantaneidade contra a variação, uma eternidade contra a permanência. Sob todos os aspectos, a repetição é a transgressão." A repetição que sempre foi um barato meu, uma coisa que eu curtia sem saber muito com quem falar, fiquei paralisada por aquela sentença. No livro, Deleuze associa a diferença a generalidades, enquanto a repetição é singularidade.
Pensei nessas distantes pessoas queridas e em como tudo o que elas falam, prezam e desejam está muito mais no âmbito do geral que do singular. A minha bicicleta, por exemplo, representa pra mim a forma como eu quero passar pelo mundo, devagar, sentindo a brisa nos cabelos, olhando a paisagem e contando apenas com as minhas pernas. É uma opção singular, enquanto no geral, valorativamente, este meio de transporte não chega nem perto do ar condicionado do carro de vidros escuros fechados.
Poderia ficar arrumando mais algumas explicações ou exemplos, falar sobre uma certa nostalgia do transcendente que quando não é suprida pela obra de arte, acaba encontrando outros caminhos como o fanatismo religioso ou a intolerância que tenta eliminar a diferença, tudo em busca de uma pureza que já não é possível no mundo de hoje. Mas talvez seja melhor só deixar pra lá, ficar quieta, passear de bicicleta por aí recitando para mim mesma algum poema de cor. Já que "a cabeça é o órgão das trocas, mas o coração é o órgão amoroso da repetição".
Não sei o que está havendo com o mundo e como indivíduos assim, que eu conheço desde sempre, que eram crianças amorosas e adolescentes alegres, viraram adultos tão pouco admiráveis. Que caminhos tomamos para em 8 anos seguirmos trajetórias e escolhas tão diferentes. Chegando em casa sem resposta e sem sono abri o livro que tinha acabado de chegar pelo correio, afinal, estava arrasada e poucas coisas me dão tanto prazer quanto abrir um livro novo que há tanto tempo eu quero ler. O livro é "Diferença e repetição" de Deleuze e, assim, comecei a desfrutar da minha noite.
Logo na introdução está lá: "se a repetição existe, ela exprime, ao mesmo tempo, uma singularidade contra o geral, uma universalidade contra o particular, um notável contra o ordinário, uma instantaneidade contra a variação, uma eternidade contra a permanência. Sob todos os aspectos, a repetição é a transgressão." A repetição que sempre foi um barato meu, uma coisa que eu curtia sem saber muito com quem falar, fiquei paralisada por aquela sentença. No livro, Deleuze associa a diferença a generalidades, enquanto a repetição é singularidade.
Pensei nessas distantes pessoas queridas e em como tudo o que elas falam, prezam e desejam está muito mais no âmbito do geral que do singular. A minha bicicleta, por exemplo, representa pra mim a forma como eu quero passar pelo mundo, devagar, sentindo a brisa nos cabelos, olhando a paisagem e contando apenas com as minhas pernas. É uma opção singular, enquanto no geral, valorativamente, este meio de transporte não chega nem perto do ar condicionado do carro de vidros escuros fechados.
Poderia ficar arrumando mais algumas explicações ou exemplos, falar sobre uma certa nostalgia do transcendente que quando não é suprida pela obra de arte, acaba encontrando outros caminhos como o fanatismo religioso ou a intolerância que tenta eliminar a diferença, tudo em busca de uma pureza que já não é possível no mundo de hoje. Mas talvez seja melhor só deixar pra lá, ficar quieta, passear de bicicleta por aí recitando para mim mesma algum poema de cor. Já que "a cabeça é o órgão das trocas, mas o coração é o órgão amoroso da repetição".
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Fred
Fred era calado, gostava de ver televisão e desenhar. Um garoto esquisitão para quem tinha 8 anos, poucos amigos e poucas palavras. Fred morava com o bisavô, Agenor, numa casa no subúrbio, onde se ouvia principalmente o canto dos passarinhos da casa, em suas gaiolas e a rádio de notícia, que o Seu Agenor ouvia baixinho ao pé do ouvido. Se não fosse por esses dois sons, poderíamos dizer que era como se Fred e o bisavô vivessem em um filme mudo. Não era uma questão de não se entenderem, não, muito pelo contrário, eles eram apenas pessoas silenciosas que aprenderam a se comunicar sem palavras. Ao lado do quarto de Fred havia um piano que ele nunca ousou tocar, aliás, desde a morte de sua bisavó, Dona Elisete, o piano se tornou mais um morador silencioso daquela casa. Seu Agenor sempre dizia que o som desse instrumento espantava o canto dos passarinhos. E Fred, de maneira alguma, queria calar o som principal que habitava aquela casa.
Dona Elisete
Dona Elisete ainda era nova e orgulhosa falava para todos que já era bisavó. Ela não tinha muito com quem conversar, seus filhos moravam longe, seu neto trabalhava o dia inteiro e seu marido falava muito pouco. Este, seu Agenor, gostava de passarinhos em gaiolas e de ouvir o noticiário. Ele ficava ouvindo as notícias do radio AM que nunca desligava nem na hora de dormir. E Dona Elisete, como não tinha muito com quem conversar, adorava andar de ônibus para puxar assunto com quem sentasse ao seu lado. Que mochila pesada, quer que eu segure, olha, acho um absurdo isso, e eu já sou bisavó, sei bem que não se usa esses livros todos. Quando voltava de seus passeios, com alegria, corria para tocar seu piano, antes que Seu Agenor chegasse. Seu Agenor não gostava que ela tocasse piano, principalmente música clássica, atrapalhava seus passarinhos. Quando ele chegasse, ela se levantaria, antes que ele percebesse. Não gostava de cara feia, e Seu Agenor de cara feia, franzia o rosto de um jeito que o deixava parecido com seus passarinhos. Dona Elisete deixava pra lá, como havia deixado o sonho de ser pianista, a vontade de pintar as unhas e os lábios de vermelho e tantas outras coisas que ficaram pelo caminho. Ela se voltava para o bisneto de 6 meses que ficava no berço no quarto ao lado do piano. Esse sim, sempre tinha no rosto um sorriso para ela e gostava muito de ouvi-la tocar.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
As paredes do feriado
as paredes do feriado
se juntam a longos corredores
onde ecos compridos
vêm, às vezes dar notícias.
as paredes do feriado
são curtas e finas,
será que elas
têm ouvidos?
é mais provável que tenham
olhos ou línguas.
as paredes do feriado são
limpas e ásperas
e eu as aproveito
para pendurar meus brancos
lençóis guardados,
lavados.
se juntam a longos corredores
onde ecos compridos
vêm, às vezes dar notícias.
as paredes do feriado
são curtas e finas,
será que elas
têm ouvidos?
é mais provável que tenham
olhos ou línguas.
as paredes do feriado são
limpas e ásperas
e eu as aproveito
para pendurar meus brancos
lençóis guardados,
lavados.
terça-feira, 12 de abril de 2011
aos fracassos felizes
brindemos aos fracassos felizes
às promessas descumpridas
com gosto,
à prazerosa perda de tempo
viva o não-fazer delirante!!!
controle remoto
telefone sem fio
wireless
careless.
Dica:
preste atenção ao
giro do ventilador de teto
e ao passo de
vagar da rede,
de dormir.
Loser
é vender seu tempo
e ignorar o que há
de beleza por aí
às promessas descumpridas
com gosto,
à prazerosa perda de tempo
viva o não-fazer delirante!!!
controle remoto
telefone sem fio
wireless
careless.
Dica:
preste atenção ao
giro do ventilador de teto
e ao passo de
vagar da rede,
de dormir.
Loser
é vender seu tempo
e ignorar o que há
de beleza por aí
Ipanema
um copo de mate
gelado na praia
um vento que bate
gelado na cara
amigas em roda
qual a medida certa da felina
vontade de sair por aí,
mulheres, o vento, o mate
a roda?
gelado na praia
um vento que bate
gelado na cara
amigas em roda
qual a medida certa da felina
vontade de sair por aí,
mulheres, o vento, o mate
a roda?
sexta-feira, 8 de abril de 2011
crise
que sacanagem
aqui nessa cidade
todos perguntam
a minha idade
mentir ou não
omitir
eis a questão
aqui nessa cidade
todos perguntam
a minha idade
mentir ou não
omitir
eis a questão
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Susana
Susana tinha medo da morte e pensava consigo mesma, e quem não tem? É verdade, esse deve ser um medo tão comum que nem deveria contar. Mas num dia de outono começou a chover ao meio-dia. Susana pensava consigo mesma que chover ao meio-dia não era comum no Rio de Janeiro. No Rio chovia ou de manhã, ou no fim da tarde, ou à noite, ou de madrugada, pensava mais um pouco e repetia que chovia ou de manhã ou no fim da tarde, ou à noite ou de madrugada. Que estranha aquela chuva. Susana pegou seus óculos de grau e foi na janela olhar a chuva. Ao atrevessar a janela percebeu que seus óculos molharam com a chuva e que era melhor tirá-los. Pensou que a água se dá melhor no corpo da gente, nada entre nós e a chuva seria melhor, seria melhor um peito aberto para abraçar a chuva. Uma chuva ao meio-dia não causaria tantos estragos no trânsito era uma chuva complacente e merecia o seu abraço. Saiu de casa, dando duas voltas na chave, Susana sempre dava duas voltas na chave antes de sair, não sabia o porquê, simplesmente achava certo. Na rua assobiou "Singin' in the rain" porque não se atrevia a cantar, já ousava demais sem o guarda-chuva. Molhava-se, sem medo, sem medo de gripe ou outras doenças, nem parecia ela mesma, Susana, a professorinha da 4a séria do colégio Brigadeiro XXIX. Olhava para um vira-lata que também se molhava e não se preocupava com crianças e doenças e até mesmo a morte. Susana se viu momentaneamente naquele cachorro, ali assim, tão livre como ela naquela chuva. Pegar aquele cachorro e levá-lo para casa era uma maneira dela congelar para sempre aquele momento de rebeldia. A chuva parou e Susana voltou para casa. Era feriado. Ela deu duas voltas na chave para tracar novamente a porta, tirou as roupas molhadas e as jogou no tanque, o cachorro molhado ficou na área de serviço. E depois do banho, ela começou a preparar a aula para o dia seguinte.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Minha avó falava toda noite
"tem que passar um creminho
nos pés para dormir fresquinha".
E eu passava, claro.
A minha avó tinha os lençóis
mais cheirosos do mundo,
dormir lá era maravilhoso,
a roupa de cama
tinha cheiro de abraço,
ou de ninho,
cheiro de brincar sozinha
na varanda o dia todo
para construir universos.
As coisas que a vó Dorinha
delicadamente, aconselhava,
eram a única lei que eu conhecia.
"tem que passar um creminho
nos pés para dormir fresquinha".
E eu passava, claro.
A minha avó tinha os lençóis
mais cheirosos do mundo,
dormir lá era maravilhoso,
a roupa de cama
tinha cheiro de abraço,
ou de ninho,
cheiro de brincar sozinha
na varanda o dia todo
para construir universos.
As coisas que a vó Dorinha
delicadamente, aconselhava,
eram a única lei que eu conhecia.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
eu queria ficar quietinha, parada, só absorvendo esse mundo louco, a velocidade que as coisas andam acontecendo, como uma lagarta, ou uma estátua viva. Pintei a minha pele parda de um prata imaginário e fiquei, simplesmente fiquei, numa vontade estática. É tudo mentira, é tudo figura. E eu parada ouvindo, quieta. Não precisei de um lugar isolado, verde ou dourado, eu apenas fiquei quieta na minha cama enquanto o mundo acontecia.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
cuspindo marimbondos
coça coça sem parar
é louco e bom
e não para de coçar
será o calor?
será o limão
o pernil ou
o camarão?
brotueja?
catapora?
coça coça e coça
antialérgico, banho frio
hidratante
e não para de coçar
Dr, o que eu faço
pra acalmar o empolar?
_felicidade, minha cara,
3 vezes ao dia,
e a comichão vai sarar
é louco e bom
e não para de coçar
será o calor?
será o limão
o pernil ou
o camarão?
brotueja?
catapora?
coça coça e coça
antialérgico, banho frio
hidratante
e não para de coçar
Dr, o que eu faço
pra acalmar o empolar?
_felicidade, minha cara,
3 vezes ao dia,
e a comichão vai sarar
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
de um dia pro outro
Guarda um pedaço pra Duda,
minha avó sempre fala
claro que é
o melhor pedaço
mítico pedaço
na geladeira no fogão no forno em cima da mesa
aquele intocado pedaço
proibido.
Olha o pedaço de Duda!
meu avô repete enquanto alguem se serve
temendo que se esqueça o compromisso
de fazer Duda presente em todas
as refeições.
minha avó sempre fala
claro que é
o melhor pedaço
mítico pedaço
na geladeira no fogão no forno em cima da mesa
aquele intocado pedaço
proibido.
Olha o pedaço de Duda!
meu avô repete enquanto alguem se serve
temendo que se esqueça o compromisso
de fazer Duda presente em todas
as refeições.
domingo, 16 de janeiro de 2011
ser livre
se eu pudesse
ai, se eu pudesse
ser a moça livre
dos meus sonhos de
criança
talvez não houvesse esse
vazio perdido em algum
lugar do corpo
ou esse copo
meio vazio de tudo
liberdade é adolescer
sem pressa
e "indolescer"
sem medo
ai, se eu pudesse
ser a moça livre
dos meus sonhos de
criança
talvez não houvesse esse
vazio perdido em algum
lugar do corpo
ou esse copo
meio vazio de tudo
liberdade é adolescer
sem pressa
e "indolescer"
sem medo
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Freedom 90'
Fico pensando no porquê das coisas, principalmente, no porquê das minhas coisas, afinal, isso é uma egotrip, e chegam umas perguntas loucas como por que eu tenho tanta vontade de dizer sim sempre pra tudo e depois eu vejo que não dá? Ou por que essa saudade de tudo? Ou ainda por que ouvir tanta música anos 90?
Para essa última questão, uma amiga minha disse que as pessoas se apegam a momentos em que foram muito felizes e que deve ser por isso que eu escuto George Michael e Semisonic com tanta freqüência. Mas quem é tão feliz assim na adolescência? Tava pensando, e acho que fui. Eu era feliz, eu confiava demais em mim, eu achava que tudo ia dar certo dentro de pouquíssimo tempo. Eu acreditava que era necessário apenas saber a história do rock e ver os filmes europeus e asiáticos do momento que estaria pronta.
A adolescência deve ser uma espécie de anti-sala da vida (adulta) na qual montamos o nosso destino, o nosso projeto de vida, e depois é que vemos que as coisas não são exatamente assim. Como sou uma pessoa que ama planejar, acho que o momento em que eu tinha tempo para fazer o roteiro da minha vida, fechadinho, bonito, sensível, cheio de viradas, e claro, vários finais felizes, esse momento devia ser ótimo mesmo.
Mas o que a gente faz agora quando a vida ta no ar e todos os acertos têm que ser feitos na improvisação? Não sei, eu sigo improvisando, reeditando, gostando ou não do resultado, mas sempre ligada. Talvez, planejar a felicidade futura, como eu fiz na adolescência, como as pessoas fazem quando pensam em ganhar na loteria, ou quando um novo ciclo se inicia (formatura, nascimento, emprego novo, etc), talvez, seja esse o verdadeiro sabor da felicidade, porque essa felicidade é plena, perfeita e muito real porque está acontecendo nas nossas cabeças. Acho que a realidade que acontece nas nossas cabeças é a melhor que conheço, e ela atende pelo nome de sonho.
Para essa última questão, uma amiga minha disse que as pessoas se apegam a momentos em que foram muito felizes e que deve ser por isso que eu escuto George Michael e Semisonic com tanta freqüência. Mas quem é tão feliz assim na adolescência? Tava pensando, e acho que fui. Eu era feliz, eu confiava demais em mim, eu achava que tudo ia dar certo dentro de pouquíssimo tempo. Eu acreditava que era necessário apenas saber a história do rock e ver os filmes europeus e asiáticos do momento que estaria pronta.
A adolescência deve ser uma espécie de anti-sala da vida (adulta) na qual montamos o nosso destino, o nosso projeto de vida, e depois é que vemos que as coisas não são exatamente assim. Como sou uma pessoa que ama planejar, acho que o momento em que eu tinha tempo para fazer o roteiro da minha vida, fechadinho, bonito, sensível, cheio de viradas, e claro, vários finais felizes, esse momento devia ser ótimo mesmo.
Mas o que a gente faz agora quando a vida ta no ar e todos os acertos têm que ser feitos na improvisação? Não sei, eu sigo improvisando, reeditando, gostando ou não do resultado, mas sempre ligada. Talvez, planejar a felicidade futura, como eu fiz na adolescência, como as pessoas fazem quando pensam em ganhar na loteria, ou quando um novo ciclo se inicia (formatura, nascimento, emprego novo, etc), talvez, seja esse o verdadeiro sabor da felicidade, porque essa felicidade é plena, perfeita e muito real porque está acontecendo nas nossas cabeças. Acho que a realidade que acontece nas nossas cabeças é a melhor que conheço, e ela atende pelo nome de sonho.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
às vezes tenho vontade de ficar quietinha
uma vontade-árvore de só me balançar
ao sabor do vento,
ou de ser pequena,
miudinha mesmo
daquele tipo de coisa
que se espanta quem
encontra.
talvez seja só
uma vontade de dizer não
ou um cacoete estranho de me imaginar
coisa, árvore ou bicho.
o bom da vontade é que ela
vem, mas pode se atrasar ou
ter preguiça.
Ser gente tem dessas coisas
uma vontade-árvore de só me balançar
ao sabor do vento,
ou de ser pequena,
miudinha mesmo
daquele tipo de coisa
que se espanta quem
encontra.
talvez seja só
uma vontade de dizer não
ou um cacoete estranho de me imaginar
coisa, árvore ou bicho.
o bom da vontade é que ela
vem, mas pode se atrasar ou
ter preguiça.
Ser gente tem dessas coisas
domingo, 14 de novembro de 2010
Quizás, quizás, quizás
Por conta da mostra do Wong Kar-Wai, ando revendo e pensando sobre os seus filmes e também lendo sobre o autor. Acabei descobrindo uma informação à toa: Wong Kar-wai , que já foi considerado o cineasta mais romântico do mundo, nasceu no mesmo dia 17 de julho, como eu. Eu sei, é uma bobagem, uma coincidência astral mas que faz algum sentido na minha cabeça confusa.Eu, que costumo refletir sobre o romantismo e às vezes até me considero a boba mais romântica do mundo, percebi que o que causa essa identificação forte entre mim e o cinema de WKW é exatamente essa profunda crença no amor e no que de mais bonito pode emergir dele. Não é a ligação que ele tem com o cinema de gênero, que é o meu objeto de estudo favorito . Não é o nosso interesse, o meu teórico e o dele empírico, em reincidências, repetições e eternos retornos. Tampouco vem da adesão clara à cultura pop, principalmente no que diz respeito a músicas e à linguagem de videoclipes, como referências tanto pra ele quanto para mim. Não é ontologicamente isso; o que nos une de verdade é a crença no poder de redenção do amor.
Seja o amor não concretizado, talvez a sua forma mais sublime, seja aquele completamente esfacelado, seja o amor romântico ou não, mas o amor é o que define a forma como penso e me situo no mundo. Acredito que no cinema de Kar-wai, pelo menos nos 7 longas que vi dele, é o amor (ou a falta dele ) que move essa vontade de fazer cinema. E um cinema baseado no amor e na paixão provoca resultados como a delicadeza, a beleza, a violência, a inventividade, a musicalidade, a repetição. Um cinema-amor, o que não quer dizer necessariamente um cinema romântico, como acontece em Cinzas do passado, é um cinema de engajamento pela trama, que te pega pela emoção e pelo êxtase, sem ser previsível ou banal. É este cinema que com certeza me fez abandonar outros rumos e seguir essa trilha.
Com o peito aberto eu rio sozinha pensando nessa coincidência de nascimento entre mim e o Kar-wai e penso também que o meu irmãozinho vai nascer em poucos dias ou poucas horas, e que eu tenho todo esse imaginário de amor para doar quando e toda vez que ele quiser. É assim que me sinto ao assistir um filme de Wong Kar-wai: um recém-nascido a quem oferecem um amor milenar, bonito de doer, disposto a te abraça sempre ou quando você quiser.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Ex isto

Sempre me considerei uma pessoa que gosta de cinema narrativo e pronto. Mas percebo que cada vez mais isso vem mudando, e ainda bem, tudo flui, foi um processo de anos mas eu desnarrativei as minhas expectativas (cinematográficas). Então foi uma grata surpresa para mim curtir, verbo usado com bastante frequência ultimamente, o filme Ex isto do Cao Guimarães inspirado no livro Catatau de Paulo Lemiski. O filme propõe a seguinte jornada onírica “e se Descartes tivesse vindo com Nassau para o Brasil”. A partir daí, o universo fílmico é construído através de três elemento: o nosso personagem principal, Descartes (um João Miguel inspirado), o universo da banda sonora que se alterna entre narração em off com poemas do Leminski e som direto, e os ambientes pelos quais a personagem percorre. O que achei bonito dessa suposição é exatamente porque Descartes, apesar de ser sempre associado à lógica, ao plano cartesiano e a coisas do tipo, em sua filosofia também aproveitou-se de uma suposição para pensar a vida “e se tudo isso que vivemos não é um sonho”. Na viagem onírica de Cao Guimarães (ou será do Leminski), Descartes vai se despindo, em meio a paisagens paradisíacas ou cidades caóticas, pouco a pouco até se entregar completamente ao sonho e à poesia. E o espectador se encanta com o desencanto da lógica nos trópicos, rumo a um renascimento, rebatizado pelo poeta polaco. Alguns vão dizer que o filme é lento, outros que as imagens não possuem uma unidade estética. Para mim, o filme acerta ao propor uma desconstrução de uma personagem tão conhecida, o autor do Tratado das Paixões, que aqui, abaixo do Equador, seria outro. Aliás, com a poesia leminskiana que flui e encanta e, em alguns momentos, se repete como uma espécie de mantra, quem há de ser o mesmo de sempre? O penso, logo existo, dá lugar a um bem-vindo ex isto.
domingo, 3 de outubro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Festival
Esses dias de festival são bons para eu me isolar de mim, esquecer as minhas questões e viver apenas para assistir filmes. É a mesma sensação que tenho quando viajo para longe e só fico em função da viagem. É uma delícia conseguir se entregar dessa forma a um deleite simples. Eu queria pensar assim normalmente, me focar nas coisas e esquecer do resto, sem precisar de um grande evento para iso. Mas sei lá, as coisas parece que reverberam em mim, tenho uma espécie de refluxo dos fatos: as coisas voltam, seja em memória, seja em poemas, seja em histórias. Muitas vezes eu choro, em outras escrevo, às vezes jogo tudo na mesa de bar com meus amigos. O festival controla o meu refluxo e assim eu experimento uma forma inocente de felicidade.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Rascunhos
Lendo os meus rascunhos no email me dei conta de quanta coisa eu já pensei em falar virtualmente, mas me calei. Por que será que desistimos, o que faz a diferença entre apertar ou não o botão e mandar para o mundo a sua voz? Acredito que, na maioria das vezes, a gente só em escrever o que pensa já descarrega, já melhora e até se sente um pouco ridículo em colocar o coração assim, tão corajosamente no teclado. Fico pensando em quanta coisa já passou e eu consegui resolver sozinha, só com o poder da escrita confessional. Esses rascunhos são o meu diário, muito mais que os blogs que tenho. Esses rascunhos são como aquele retrato feio que escondemos de todos, inclusive da gente. E mexer nessas coisas é cavucar nos lugares esquecidos e doídos do nosso coração.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Lenda familiar
Sabe essas lendas familiares? Meu avô era uma na minha família. Porque ele tinha um jeito de falar próprio, uma malandragem, um modo de pensar a frente do seu tempo. Hoje me deu saudade dele. Acho que da sabedoria popular que ele retransmitia para mim e do seu jeito despreocupado de falar bobagens. Meu avô era leve e isso eu sempre admiro em uma pessoa, a leveza. Acho que a memória é assim mesmo, ela volta e meia pinça uma pessoa, uma vontade, um fato. Talvez, seja a minha vontade de sorrir mais que me faça lembrar dele justamente hoje. Talvez seja o fato de que aquele que era um estranho na minha adolescência e eu percebo que hoje, cada vez mais, me pareço com ele. Ou não tem motivo algum. Engraçado, mas as pessoas vão embora e continuam envelhecendo, ou melhor, curando, na nossa vida.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Barcelona à tarde
Fico me perguntando se não são todos os relacionamentos questão de momentos. Será que o que une um casal por anos, são aquelas férias no México e aquele banho de chuva louco ou a rotina dos dias que se acumulam? Em qualquer discurso sobre a história do cinema, por exemplo, o que fica mesmo são cenas antológicas, poucas mas importantes imagens para guardar para sempre. De todos os outros filmes, guarda-se apenas o hábito de assistir a imagens em movimento. Acredito que assim seja com os relacionamentos, ao se recapitular uma vida a dois o que se lembra serão alguns momentos certos que poderiam girar na nossa cabeça para sempre. O hábito de ficarmos juntos só se constroi dia após dia, porém são determinados momentos que permitem que você diga sim ou não, e, principalmente, para sempre para essas duas palavras no seu relacionamento.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
A distância do prédio vizinho
Trabalho burocraticamente na véspera do feriado, até que percebo que a fresta da minha janela enquadra exatamente o janelão do INSS aqui em frente. Daqui do meu cúbilo, olho para eles, os outros, como se vivessem naquela gaiola envidraçada, naquele laboratório de onde os observo à distancia. Vejo, em tons de cinza, estantes, gavetas, arquivos, recados pregados em paredes improvisadas, mesas desarrumadas, funcionários que gritam exaltados e eu não escuto. Daqui da fresta da minha janela eu vejo o nada. E penso que se no lugar dessa janela eu visse um espelho, talvez eu teria a mesma cena, a mesma impressão, os mesmos cinzas. Como será esse lugar aconchegante que parece um ninho, à distância do prédio vizinho?
quinta-feira, 15 de abril de 2010
quarta-feira, 31 de março de 2010
Fraternidade

Eu sempre me defini através de muitos conceitos, e um deles certamente é o de filha única. Esse conceito que parece à toa, que parece apontar apenas para o fato de você há anos ter um quarto só pra você, na verdade, quer dizer que várias coisas em sua casa sempre foram só para você. Enfim, achava que com a idade que já tenho posso ser definida assim para sempre, porém, descobri que para sempre é um conceito estranho que prescreve de vez em quando. Descobri que as várias coisas que sempre foram só pra mim, coisas como atenção, amor, carinho, conhecimento, agora será transmitida para outra pessoinha que nem sei o que será. Descobri que tudo que guardei para mim até hoje, que tudo que aprendi sei lá como, sei lá onde, agora, finalmente tenho a quem transmitir, a quem ensinar. Será que essa pessoa vai querer saber o que foi a Nouvelle Vague, ou o que era o grunge, ou que a final da Copa de 94 foi no meu aniversário, ou que a nossa tia guardava dólares naquele pavoroso boneco de infância dela, ou, sei lá, como os espanhóis dizimaram os índios da América. Será que humor idiota se ensina ou ta no DNA? Enfim, tantas outras coisas que vou, de agora em diante, para sempre descobrir. A única coisa que sei é que a partir de agora eu tenho alguém para dividir tanta coisa que sempre foi só para mim e isso me deixa muito feliz.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Linguagem de aproximação

Assisti a "Invictus" apenas com uma informação: é o novo filme do Clint Eastwood e isso bastou para que eu fosse ao cinema. Até agora não sei o que a crítica diz, não sei a sua repercussão, ou seja, estou a escrever às cegas. “Invictus” se passa na África do Sul de um Mandela recém-eleito em 1994. Contido e correto, Morgan Freeman como Mandela nos é apresentado num filme que não é exatamente sobre o grande líder, como são normalmente os filmes sobre grandes líderes e seus feitos. O filme exalta a sua figura, é claro, mas consegue fazê-la, além de abordar apartheid e diferenças, de uma maneira muito original, através apenas de um episódio, de um esporte.
Tenho um roteiro, aliás, um dos primeiros roteiros que escrevi, sobre como o futebol é uma linguagem de aproximação, como esse esporte/paixão consegue comunicar pessoas, a princípio, tão estanques. Na minha história, um avô e seu neto se aproximam para juntos assistirem ao jogo do Flamengo (claro): o menino tímido, passa a entender, assistir e gostar de futebol apenas para estar próximo do avô, antes, inatingível. Invictus, no fundo, fala da mesma linguagem de aproximação, só que em grandes proporções: um esporte (rúgbi), um time e um presidente conseguem ajudar na reunião de um país apartado. No filme, o Rúgbi, esporte da elite branca da África do Sul, que sempre foi refutado pela maioria da população por representar a dominação, passa a ser incentivado por Mandela, como uma forma de aproximar as pessoas. Porque, afinal, somos iguais e nos emocionamos profundamente quando homens, através de um jogo lúdico, passam a representar a idéia de nação. E talvez por isso o filme tenha me emocionado o tempo todo, porque me identifico demais com o seu mote central. O personagem principal também ajuda e muito a emocionar por sua integridade e sabedoria para viver entre os homens, logo ele, que por quase 30 anos de sua vida esteve preso, de certa maneira “expulso” da sociedade.
Clint, em seus últimos filmes, tem retratado esse aproximar de apartados. Foi assim claramente em Gran Torino, onde um ex-militar que lutou na guerra da Coréia passa a conviver com os coreanos anos depois em seu próprio país. Foi também nos dois filmes que fez, na verdade, complementares, sobre a Segunda Guerra, “Cartas de Iwo Jima” e “A Conquista da Honra”, sendo eles dois lados da mesma moeda. Ou como em Menina de Ouro que treinador e boxeadora, que pareciam impossíveis de se aproximar, com a intervenção do mesmo Morgan Freeman, se unem. Em todos esses filmes, mesmo com a aproximação, um certo antagonismo continua presente, seja representado pela Guerra, seja pelo confronto de gangues, ou pelas batalhas travadas nos estádios e ringues. Mas em Invictus, esse reconhecimento no outro como igual e migração para o mesmo lado é central e tocante. Talvez por ser uma história real, e não uma que se passa em Pandora. Talvez por unir de uma só vez o triunfo de um homem, uma nação e um time, e do “Bem”, afinal, é cinema americano em seu melhor estilo.
Não sei, mas talvez por apresentar um esporte tão alheio a nossa cultura como o Rúgbi, também nós sentimos essa migração de leigos para entusiastas ao longo do filme. É provável que essa identificação provoque uma aproximação com o filme, com a uma noção de Humanidade embutida nele, irresistível e comovente, e saímos convencidos de que somos todos iguais nessa sala escura e apartada do mundo.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Rayito para todos

Ontem sai cedo do trabalho e fui pra praia (que fique claro que cheguei cedo para compensar, afinal, sou uma menina séria). E fiquei lá me banhando e depois sentindo aquele solzinho de fim de tarde, e depois olhando um pôr-do-sol Rayito inesquecível. Tudo isso e eu me perguntava qual o sentido de se trabalhar tanto? Por que não instituir o vale-praia todo fim de tarde durante o verão? E também, por que ser tão séria até no meu blog?
domingo, 31 de janeiro de 2010
Música que não me sai do pensamento
Eu pouco falo de música nos meus blogs. Nesse nunca. Pois é, eu ando ouvindo uma música algumas vezes por dia há algum tempo e não me canso. Sabe essa sensação? É boa, né? Parece quando você está apaixonado e quer lembrar daquela pessoa, mas nesse caso, você ouve a música sem paixão nenhuma.
Música é sempre uma boa referência para mim quando penso em clima num filme, por ela ser uma ligação direta com as nossas memórias, com o nosso repertório de imagens, sons e cheiros. Acho que a música, diferente de um filme ou um livro, te leva para um universo além dela com muita facilidade. O livro te prende àquele universo dele e te dá o trabalho (maravilhoso, mas ainda, trabalho) de criar o universo junto conforme lemos. O filme te carrega para aquele universo e ficamos esperando a próxima cena, o próximo passo, o desfecho, as referências, os atores. Com a música é diferente, você fica imerso nela, quando é boa, mas ao mesmo tempo, consegue alcançar um outro mundo, novo, que você cria na hora que escuta, cria uma identidade com a música, um mundo próprio, um avatar da canção que vive para sempre no seu coração.
E o que mais me intriga e me faz ser tão fã dessa arte é a forma deliciosa que a música é degustada: você relaxa, fecha os olhos e ouve. É simples, é bom e não cansa. Como já falei, o livro te dá trabalho, e como já deixei pistas, o filme também, a música, ao contrário, te tira o trabalho. Você consegue trabalhar e ouvir música, e o trabalho se torna muito mais agradável. Escrever ouvindo música, só não dá pra fazer filme com música e um dia eu descrevo a experiência de um set de filmagem.
Mas isso tudo é por causa de uma música linda que ouço tantas vezes por dia, como falei acima. Uma música do disco novo do Arctic Monkeys, chamada Cornerstone. O que me impressionou nessa música além da melodia triste e deliciosa foi a letra inteligente, triste e bem sacana no final. Ela traz imagens lindas da dor da saudade como “eu alonguei a minha carona pra casa, deixei ele dar várias voltas; eu senti o seu cheiro no cinto de segurança e guardei os meus atalhos para mim”. É linda essa imagem de como pode ser miserável o amor.
O clipe é estranho e parece ter sido feito pelo personagem da música, apaixonado, desesperado, que precisa gravar esse recado para a moça da canção. É estranho e contagiante, aliás, foi este clipe estranhíssimo que me fez prestar atenção na música e posteriormente no disco, que PRECISA ser ouvido, onde Cornerstone brilha mais que as outras. É a MTV que continua prestando o serviço que deveria ser sua função nos breves programas de clipe da emissora.
Mas cornerstone criou uma bela imagem no meu coração, uma tristeza de amor boa de sentir que eu consigo ter toda vez que começa a tocar. Eu revisito todas as dores de amor que já tive na vida, lembro da dor do Victor em Carne Trêmula, lembro da dor do personagem de “Fim de caso”, de Graham Greene e de todas as dores de amor e superação delas que conheço. Até que a música acaba e naquele tempo de silêncio eu me sinto um pouco abandonada pela imagem que foi embora. Por isso, repito e ouço novamente até estar preparada para, em poucos acordes, criar outro mundo, outra imagem, outro clima e remover outros sentimentos na próxima canção.
Música é sempre uma boa referência para mim quando penso em clima num filme, por ela ser uma ligação direta com as nossas memórias, com o nosso repertório de imagens, sons e cheiros. Acho que a música, diferente de um filme ou um livro, te leva para um universo além dela com muita facilidade. O livro te prende àquele universo dele e te dá o trabalho (maravilhoso, mas ainda, trabalho) de criar o universo junto conforme lemos. O filme te carrega para aquele universo e ficamos esperando a próxima cena, o próximo passo, o desfecho, as referências, os atores. Com a música é diferente, você fica imerso nela, quando é boa, mas ao mesmo tempo, consegue alcançar um outro mundo, novo, que você cria na hora que escuta, cria uma identidade com a música, um mundo próprio, um avatar da canção que vive para sempre no seu coração.
E o que mais me intriga e me faz ser tão fã dessa arte é a forma deliciosa que a música é degustada: você relaxa, fecha os olhos e ouve. É simples, é bom e não cansa. Como já falei, o livro te dá trabalho, e como já deixei pistas, o filme também, a música, ao contrário, te tira o trabalho. Você consegue trabalhar e ouvir música, e o trabalho se torna muito mais agradável. Escrever ouvindo música, só não dá pra fazer filme com música e um dia eu descrevo a experiência de um set de filmagem.
Mas isso tudo é por causa de uma música linda que ouço tantas vezes por dia, como falei acima. Uma música do disco novo do Arctic Monkeys, chamada Cornerstone. O que me impressionou nessa música além da melodia triste e deliciosa foi a letra inteligente, triste e bem sacana no final. Ela traz imagens lindas da dor da saudade como “eu alonguei a minha carona pra casa, deixei ele dar várias voltas; eu senti o seu cheiro no cinto de segurança e guardei os meus atalhos para mim”. É linda essa imagem de como pode ser miserável o amor.
O clipe é estranho e parece ter sido feito pelo personagem da música, apaixonado, desesperado, que precisa gravar esse recado para a moça da canção. É estranho e contagiante, aliás, foi este clipe estranhíssimo que me fez prestar atenção na música e posteriormente no disco, que PRECISA ser ouvido, onde Cornerstone brilha mais que as outras. É a MTV que continua prestando o serviço que deveria ser sua função nos breves programas de clipe da emissora.
Mas cornerstone criou uma bela imagem no meu coração, uma tristeza de amor boa de sentir que eu consigo ter toda vez que começa a tocar. Eu revisito todas as dores de amor que já tive na vida, lembro da dor do Victor em Carne Trêmula, lembro da dor do personagem de “Fim de caso”, de Graham Greene e de todas as dores de amor e superação delas que conheço. Até que a música acaba e naquele tempo de silêncio eu me sinto um pouco abandonada pela imagem que foi embora. Por isso, repito e ouço novamente até estar preparada para, em poucos acordes, criar outro mundo, outra imagem, outro clima e remover outros sentimentos na próxima canção.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Não quero sugar todo o seu leite
Não quero fazer o meu
centésimo aniversário.
Quero viver cem anos
em menos tempo,
o tempo longo demais
tende a ser cruel,
escorrendo aos poucos.
Ao contrário,
quero o meu centenário
curto, concentrado
mal-batido,
e devorá-lo com poucos
goles sedentos.
centésimo aniversário.
Quero viver cem anos
em menos tempo,
o tempo longo demais
tende a ser cruel,
escorrendo aos poucos.
Ao contrário,
quero o meu centenário
curto, concentrado
mal-batido,
e devorá-lo com poucos
goles sedentos.
O tempo corre estranho
com minhas amigas tão longe.
É um vazio de
coisas bobas,
de nossas tardes preguiçosas,
de gritar quando as encontro
por acaso, ou não.
Queria poder fazer um brinde qualquer,
me comunicar com poucos olhares,
ligar para dizer que ouvi
aquela música no rádio,
ou que estou bêbada
e que as amo.
Citar Caetano
com apenas uma palavra.
Eu queria
simplesmente
comparar nossos vermelhos nas unhas.
Lisboa tem minhas amigas,
mas elas vão, para sempre,
morar comigo.
com minhas amigas tão longe.
É um vazio de
coisas bobas,
de nossas tardes preguiçosas,
de gritar quando as encontro
por acaso, ou não.
Queria poder fazer um brinde qualquer,
me comunicar com poucos olhares,
ligar para dizer que ouvi
aquela música no rádio,
ou que estou bêbada
e que as amo.
Citar Caetano
com apenas uma palavra.
Eu queria
simplesmente
comparar nossos vermelhos nas unhas.
Lisboa tem minhas amigas,
mas elas vão, para sempre,
morar comigo.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
This is it

Sabe aquelas crianças de filme iraniano, que estão muito felizes, mas que você, espectador, sabe que vai acontecer alguma desgraça? Então, era assim que eu me sentia com o convite do novo filme do Michael Jackson nas mãos. Era como se eu me assistisse de longe e tivesse medo de perder o convite a qualquer momento, com essa nova onda de violência na cidade. Felizmente, eu estive a salvo dessa doideira toda e cheguei com segurança ao cinema.
Bom, que eu sou fã do Michael Jackson, isso não é novidade para ninguém que me conhece. Lembro que um dos primeiros presentes que pedi na vida foi um disco dele, o BAD e meu tio me deu a fita cassete, nada mais anos 80 que ouvir esta fita enquanto eu dançava os meu passos de jazz. O engraçado é que dias antes de eu ganhar o convite eu revi este videoclipe e fiquei impressionada com a forma que ele dançava, 22 anos depois, imagine então o impacto que ele causou naquela menina de 4 anos que pediu o disco e que adorava dançar.
Durante o filme, eu me sentia aquela menina, não porque o filme era muito bom, mas porque ele me fez lembrar dela e de como era bom ser leve e sair dançando a todos aqueles hits maravilhosos que ele cantou como ninguém. This is it é um filme para fãs e totalmente consciente das suas limitações, ao contrário da sua campanha de marketing que o torna muito maior do que ele pode ser. Portanto, não vá ao cinema esperando o melhor dos filmes, ou o documentário definitivo sobre MJ, não é nem de perto isso. É simplesmente um filme sobre o show que ele iria fazer em Londres e, conforme uma entrevista mostrada no filme, seria a sua despedida dos palcos. This is it, por ironia do destino, acabou sendo a real despedida do artista e também agora pode ser visto em todo mundo e não apenas em Londres, onde seriam os seus shows. É o cinema democratizando os popstars...
Mas voltando ao filme, o interessante é que podemos ver o quanto de vitalidade Michael Jackson, apesar de toda a sua bizarrice, esbanjava aos 50 anos. Ele deslizava suas coreografias características com muita elegância, como fazia no seu próprio (outro) estilo e igualmente leve um Fred Astaire já coroa. E Jackson não apenas dança, faz as coreografias, como escreveu as músicas e acertas seus arranjos de acordo com as necessidades do corpo para sair dançando. O filme mostra como MJ coordenava todos os detalhes daquele que seria o seu último show e não apenas um personagem estranho de uma revista de fofoca: This is it mostra o gênio que parecia adormecido depois de tantos anos sem compor e esse é o seu mérito. Mostra também a contagiante música de Michael que era dançada pela platéia miúda que podia assistir aos ensaios e como seria bom assistir àquele show.
Nas três primeiras músicas há um certo vestígio de decupagem, uma filmagem que parece ter sido pensadas antes, e o resultado é bem interessante com multitelas e Jackson para todas as direções. Já do meio para o final, as apresentações não estão tão filmáveis assim, e algumas vezes, parece que ele apenas se aquecia, indicando uma certa forçação de barra de se querer montar um filme tão longo com tão pouco material. A qualidade das imagens em alguns momentos é péssima, o que prova o quanto é um filme mais preocupado em mostrar, que em mostrar bem feito, algo bem diferente do estilo do chamado “Rei do pop” com suas espetaculares e poucas apresentações durante sua carreira.
This is it não tem a surpreendente qualidade dos videoclipes de Jackson, não é um espetáculo de show, mas é um importante documento, um registro sobre os últimos meses de um grande artista e como tal, vale ser assistido. O filme não questiona nada, não repensa nada sobre a carreira de MJ, não mostra nenhuma entrevista ou qualquer imagem sobre nada além do show que nunca aconteceu; provavelmente, isso será explorado por outros produtos, que renderão alguns outros milhões à família Jackson. Mas para quem quer matar saudades do tempo em que música pop era de excelente qualidade, vendia muitos discos e ainda tocava nas rádios, é uma ótima pedida. Veja e saia do cinema cantando “Heal the world” achando que talvez este mundo ainda tenha jeito. Afinal, nada de ruim aconteceu comigo enquanto eu seguia com o meu convite dourado para o cinema.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Vozinha
Hoje é um dia de dor. É claro que eu sabia que esse dia viria, uma vozinha tão velhinha eu sempre soube que um dia iria se despedir. Bom, aconteceu, ela se foi e me deixou um monte de perguntas que eu nunca terei resposta. Acho que a morte é exatamente este vazio sem respostas.
Eu acho que nunca perguntei para ela como é que é viver tanto. Nunca fiz essa pergunta, e tenho certeza que ela teria me dado uma bela resposta, cheia de poesia e realidade, como ela sempre foi. Foi com toda esta poesia e realidade que me inspirei nela para escrever algumas histórias, uma espécie de realismo fantástico do subúrbio do Rio. A história da Ave-Maria é baseada nela, uma outra história sobre um cacto que escrevi e um dia publicarei também é sobre ela.Ela era a minha principal fonte de informação sobre de onde veio a minha família, foi ela que me contou sobre uma fuga romântica a cavalo de nossos antepassados que queriam se casar apesar da oposição da família. Sempre achei essa imagem linda e adorava pensar que a minha família se formou assim num amor aventureiro que sempre teve tudo para dar certo.
Nos últimos anos eu conversava pouco com ela, confesso. Não sei se ela que falava menos ou eu que parava menos para ouvi-la. Sei que há tempos ela não se lembrava mais desta história de uma fuga romântica a cavalo, e também algumas vezes em que ia visitá-la, ela não me reconhecia. A vida tem desses subterfúgios para nos preparar para quando ela vai se despedindo. A gente acaba se acostumando com a idéia de desaparecer antes que isso aconteça, e nisso, me refiro ao fato de eu desaparecer para ela, nunca o contrário, ela nunca sairá de mim.
Nunca vou esquecer os ursinhos de mãos dadas que ela fazia para me divertir quando eu era criança, uma criança que nunca soube desenhar e sempre se impressionava com isso. Nunca vou esquecer as suas lições de sabedoria, mas é uma pena que entendi tarde demais que “fogo com pólvora explode”, ou eu teria uma adolescência menos explosiva. Eu queria realmente ter aprendido em suas aulas de crochê, mas enfim, quantas coisas deixamos de fazer com aqueles que partem?
Não é só o que deixamos de fazer, mas perder a minha bisavó pra mim é perder um pouco de fé na vida. Secretamente, eu tenho certeza que acreditava que a gente poderia durar para sempre, como ela parecia ser capaz de fazer, a despeito de toda sua fragilidade aparente. Às vezes ela ficava doente e não saía da cama, eu chorava sem parar até que ela se recuperava e tudo ficava lindo, como num bom filme de sessão da tarde que eu adoro. É triste porque além de ter perdido a minha vozinha, parece que eu caí da Terra do Nunca.
Ela sempre foi o documentário que eu nunca fiz e que nunca mais poderei fazer, da maneira como gostaria, mostrando e exibindo a minha avó para todo mundo ver a gracinha que ela era: Ela mostrava um universo que andava no passo de uma cadeira de balanço, ela representava todo um estilo de vida alternativo e low profile que eu sempre admirei e que o mundo agora parece entender o quanto ela estava certa e caminha para copiá-la, numa manobra contra consumismo e catástrofes ecológicas reinantes.
Na verdade, eu nunca consegui filmá-la. Tentei algumas vezes, mas ela ficava muito preocupada com a aparência, em sua cadeira de balanço, sempre falava “oi, oi, oi” e ficava ajeitando o cabelo – que era igual ao seu quando eu era nova, ela falava – e eu não queria mais aborrecê-la com a câmera. Desligava. Quem sabe um dia eu não volto a ligar a câmera e faço o filme assim mesmo, com tudo o que restou em mim? Talvez a morte não seja um vazio de respostas, mas uma chuva, como essa que caiu hoje à noite, forte e incontrolável; a morte deve ser uma chuva de perguntas que nos mostra outras direções e nos ajuda a seguir em frente.
Eu acho que nunca perguntei para ela como é que é viver tanto. Nunca fiz essa pergunta, e tenho certeza que ela teria me dado uma bela resposta, cheia de poesia e realidade, como ela sempre foi. Foi com toda esta poesia e realidade que me inspirei nela para escrever algumas histórias, uma espécie de realismo fantástico do subúrbio do Rio. A história da Ave-Maria é baseada nela, uma outra história sobre um cacto que escrevi e um dia publicarei também é sobre ela.Ela era a minha principal fonte de informação sobre de onde veio a minha família, foi ela que me contou sobre uma fuga romântica a cavalo de nossos antepassados que queriam se casar apesar da oposição da família. Sempre achei essa imagem linda e adorava pensar que a minha família se formou assim num amor aventureiro que sempre teve tudo para dar certo.
Nos últimos anos eu conversava pouco com ela, confesso. Não sei se ela que falava menos ou eu que parava menos para ouvi-la. Sei que há tempos ela não se lembrava mais desta história de uma fuga romântica a cavalo, e também algumas vezes em que ia visitá-la, ela não me reconhecia. A vida tem desses subterfúgios para nos preparar para quando ela vai se despedindo. A gente acaba se acostumando com a idéia de desaparecer antes que isso aconteça, e nisso, me refiro ao fato de eu desaparecer para ela, nunca o contrário, ela nunca sairá de mim.
Nunca vou esquecer os ursinhos de mãos dadas que ela fazia para me divertir quando eu era criança, uma criança que nunca soube desenhar e sempre se impressionava com isso. Nunca vou esquecer as suas lições de sabedoria, mas é uma pena que entendi tarde demais que “fogo com pólvora explode”, ou eu teria uma adolescência menos explosiva. Eu queria realmente ter aprendido em suas aulas de crochê, mas enfim, quantas coisas deixamos de fazer com aqueles que partem?
Não é só o que deixamos de fazer, mas perder a minha bisavó pra mim é perder um pouco de fé na vida. Secretamente, eu tenho certeza que acreditava que a gente poderia durar para sempre, como ela parecia ser capaz de fazer, a despeito de toda sua fragilidade aparente. Às vezes ela ficava doente e não saía da cama, eu chorava sem parar até que ela se recuperava e tudo ficava lindo, como num bom filme de sessão da tarde que eu adoro. É triste porque além de ter perdido a minha vozinha, parece que eu caí da Terra do Nunca.
Ela sempre foi o documentário que eu nunca fiz e que nunca mais poderei fazer, da maneira como gostaria, mostrando e exibindo a minha avó para todo mundo ver a gracinha que ela era: Ela mostrava um universo que andava no passo de uma cadeira de balanço, ela representava todo um estilo de vida alternativo e low profile que eu sempre admirei e que o mundo agora parece entender o quanto ela estava certa e caminha para copiá-la, numa manobra contra consumismo e catástrofes ecológicas reinantes.
Na verdade, eu nunca consegui filmá-la. Tentei algumas vezes, mas ela ficava muito preocupada com a aparência, em sua cadeira de balanço, sempre falava “oi, oi, oi” e ficava ajeitando o cabelo – que era igual ao seu quando eu era nova, ela falava – e eu não queria mais aborrecê-la com a câmera. Desligava. Quem sabe um dia eu não volto a ligar a câmera e faço o filme assim mesmo, com tudo o que restou em mim? Talvez a morte não seja um vazio de respostas, mas uma chuva, como essa que caiu hoje à noite, forte e incontrolável; a morte deve ser uma chuva de perguntas que nos mostra outras direções e nos ajuda a seguir em frente.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Roubaram a minha bicicleta
Roubaram a minha bicicleta. Quem me connhece um pouco mais, sabe que esse fato me abalou. O problema não é terem roubado a minha bicicleta, mas terem roubado o meio de transporte ecologicamente correto que me leva para qualquer lugar na minha cidade. Roubaram minha companheira de vários filmes feitos e vistos. Roubaram a bicicleta na qual eu ensinei duas amigas minhas a andarem. Roubaram uma certa sensação de liberdade que eu sentia, roubaram parte de um estilo de vida que eu adoto. Tenho outra bicicleta, não é uma perda material, são todas essas coisinhas que foram levadas a reboque, além da inevitável sensação de ter sido feita de boba que ninguém gosta de ter.
Já comprei uma nova bicicleta, mas como falei, o problema de levarem a bicicleta é que junto levam pequenos pedacinhos da sua vida, momentos que são bons de lembrar, um monte de bobagens que dão sentido ao dia-a-dia. Mas o que eu acabei chegando à conclusão, quando três semanas depois, levaram o meu celular novo, é que não vale mesmo a pena sofrer por todas essas perdas que nos deixaram lembranças boas. As lembranças são nossas, ninguém pode levar, morrem em você e nos seus diários, o que levam é apenas um link, um objeto entre a materialidade e as suas lembranças. Continuar, perseverar deixa tudo mais vivo que nunca, faz a sua perda material praticamente ser esquecida, ao contrário do que se viveu e é lembrado.
Afinal, nos levam todos os dias muitas coisas. Às vezes nos levam a energia e nem reclamamos, nos levam a alegria, o emprego nos tomam, a inocência, até a generosidade levam de nós e nós não vamos dar queixa na delegacia, ou reclamamos por aí. Quando pessoas são roubadas de nossas vidas, sem mais nem menos, nos sentimos idiotas, reclamamos, mas nada além disso. Seguimos em frente, vivemos. E é isso que devemos fazer, recuperar a vivacidade, toda vez que nos tomarem ela.
Tem gente que acha que saber viver seria se desligar, nada no bolso, nas mãos ou estacionado por aí, metaforicamente, é claro. Pode ser, não sei. Penso apenas que talvez, saber viver seja exatamente não deixar que as lembranças boas se esvaiam, que as bads não tirem a vivacidade das coisas, mesmo que talvez a gente mude o comportamento, mesmo que talvez a gente precise de uma tranca melhor.
Já comprei uma nova bicicleta, mas como falei, o problema de levarem a bicicleta é que junto levam pequenos pedacinhos da sua vida, momentos que são bons de lembrar, um monte de bobagens que dão sentido ao dia-a-dia. Mas o que eu acabei chegando à conclusão, quando três semanas depois, levaram o meu celular novo, é que não vale mesmo a pena sofrer por todas essas perdas que nos deixaram lembranças boas. As lembranças são nossas, ninguém pode levar, morrem em você e nos seus diários, o que levam é apenas um link, um objeto entre a materialidade e as suas lembranças. Continuar, perseverar deixa tudo mais vivo que nunca, faz a sua perda material praticamente ser esquecida, ao contrário do que se viveu e é lembrado.
Afinal, nos levam todos os dias muitas coisas. Às vezes nos levam a energia e nem reclamamos, nos levam a alegria, o emprego nos tomam, a inocência, até a generosidade levam de nós e nós não vamos dar queixa na delegacia, ou reclamamos por aí. Quando pessoas são roubadas de nossas vidas, sem mais nem menos, nos sentimos idiotas, reclamamos, mas nada além disso. Seguimos em frente, vivemos. E é isso que devemos fazer, recuperar a vivacidade, toda vez que nos tomarem ela.
Tem gente que acha que saber viver seria se desligar, nada no bolso, nas mãos ou estacionado por aí, metaforicamente, é claro. Pode ser, não sei. Penso apenas que talvez, saber viver seja exatamente não deixar que as lembranças boas se esvaiam, que as bads não tirem a vivacidade das coisas, mesmo que talvez a gente mude o comportamento, mesmo que talvez a gente precise de uma tranca melhor.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
Caixinha de remédios
Eu tenho uma prima da minha idade que sempre foi uma grande amiga. É dela que tenho as melhores recordações da infância e da adolescência. Na infância, ela morava numa casa de vila, no fim da rua, e quando eu chegava no portão da rua e me via do quintal de sua casa de sobrado, ela descia as escadas e saía a rua inteira correndo e gritando o meu nome até me encontrar. Isso talvez seja uns dos momentos em que eu mais me senti amada na vida.
Outra imagem que eu tenho dela é eu chegando na casa da nossa tia em Cabo Frio e ela estava em cima da árvore, olhando a vida daquele ponto de vista, muito acima da minha compreensão; eu que me achava muito esperta porque lia porcos com asas aos 12 anos. Mas ela que sempre foi muito mais rápida que eu em tudo, falou primeiro, andou primeiro, entrou na faculdade primeiro e já com o próprio negócio, tudo pronto, ela já nasceu pronta e eu nesse eterno forno. Gosto de aos poucos ir me cozinhando. Um dia eu vou para a mesa do café.
Ontem, fui lá na casa dela, tomar um cafezinho e passar o tempo, e lembrar do tempo que planejava a minha agenda com a dela; a vida mostra que infelizmente esses momentos passam. Conversamos como conversam as boas e antigas amigas, atualizando e depois apenas passando um tempinho juntas. Ela está grávida... do segundo filho... Ela realmente é rápida, eu avisei. Eu sabia que ela era casada mãe e grávida, com marido, casa de 2 quartos e um carro na garagem, sempre soube disso, mas ontem tive clareza disso. Vi que na casa dela tem uma caixinha de remédios, no banheiro, e li o nome do remédio que nunca vi na vida “Avatan”. Não era um sonrisal, uma aspirina, era uma pomada com esse nome estranho. Ela tem a sua própria caixinha de remédios, a minha prima é uma mulher adulta, meu deus, como eu tenho orgulho dela.
Vi como é que o tempo passa rápido, logo nesse momento que em menos de uma semana faço aniversário mais uma vez. Pensei que a minha prima saiu daquela árvore e agora tem uma caixa de remédios no banheiro, e que eu continuo com o meu livrinho debaixo do braço, pelo menos, agora sei que preciso aprender mais e mais. Um dia eu tomo jeito e peço a ela para me ensinar, como ela me ensinou a subir em árvores, a ser corajosa, a xingar palavrões, a responder às pessoas. Minha mãe falava: vou descobri quem está te ensinando essas coisas e vou te proibir de falar com ela. E eu morria de medo de minha mãe descobrir que era a minha prima querida que queria e fazia de tudo para que eu crescesse com ela. Um dia eu aprendo. Um dia ela me ensina, como sempre foi na vida.
Amo você, minha querida.
Outra imagem que eu tenho dela é eu chegando na casa da nossa tia em Cabo Frio e ela estava em cima da árvore, olhando a vida daquele ponto de vista, muito acima da minha compreensão; eu que me achava muito esperta porque lia porcos com asas aos 12 anos. Mas ela que sempre foi muito mais rápida que eu em tudo, falou primeiro, andou primeiro, entrou na faculdade primeiro e já com o próprio negócio, tudo pronto, ela já nasceu pronta e eu nesse eterno forno. Gosto de aos poucos ir me cozinhando. Um dia eu vou para a mesa do café.
Ontem, fui lá na casa dela, tomar um cafezinho e passar o tempo, e lembrar do tempo que planejava a minha agenda com a dela; a vida mostra que infelizmente esses momentos passam. Conversamos como conversam as boas e antigas amigas, atualizando e depois apenas passando um tempinho juntas. Ela está grávida... do segundo filho... Ela realmente é rápida, eu avisei. Eu sabia que ela era casada mãe e grávida, com marido, casa de 2 quartos e um carro na garagem, sempre soube disso, mas ontem tive clareza disso. Vi que na casa dela tem uma caixinha de remédios, no banheiro, e li o nome do remédio que nunca vi na vida “Avatan”. Não era um sonrisal, uma aspirina, era uma pomada com esse nome estranho. Ela tem a sua própria caixinha de remédios, a minha prima é uma mulher adulta, meu deus, como eu tenho orgulho dela.
Vi como é que o tempo passa rápido, logo nesse momento que em menos de uma semana faço aniversário mais uma vez. Pensei que a minha prima saiu daquela árvore e agora tem uma caixa de remédios no banheiro, e que eu continuo com o meu livrinho debaixo do braço, pelo menos, agora sei que preciso aprender mais e mais. Um dia eu tomo jeito e peço a ela para me ensinar, como ela me ensinou a subir em árvores, a ser corajosa, a xingar palavrões, a responder às pessoas. Minha mãe falava: vou descobri quem está te ensinando essas coisas e vou te proibir de falar com ela. E eu morria de medo de minha mãe descobrir que era a minha prima querida que queria e fazia de tudo para que eu crescesse com ela. Um dia eu aprendo. Um dia ela me ensina, como sempre foi na vida.
Amo você, minha querida.
domingo, 5 de julho de 2009
Solares
Barcos solares, carros solares
Canções solares de Cinema Transcendental
Ventos solares, sorrisos também.
Solar é a alegria ao meio-dia
Brindando cerveja na padaria.
Canções solares de Cinema Transcendental
Ventos solares, sorrisos também.
Solar é a alegria ao meio-dia
Brindando cerveja na padaria.
domingo, 7 de junho de 2009
Futuros Amantes
Paixão pra mim tem tudo a ver com Futuros Amantes do Chico. A leveza num sentimento desesperado e de dor, no caso, o fim do amor. Nada é pra já. Algo que repito, mas que em nenhum lugar consiga enxergar essa sabedoria em mim. Pra mim, tudo é pra ontem, meu coração urge, apesar do corpo conter uma preguiça quase contagiosa que veio de fábrica. Talvez não há amor ou quase-amor que não me tenha feito pensar levemente nessa música, apesar de no fim do amor eu sempre querer exterminar a pessoa e qualquer lembrança dela, não deixo nada, nem pra mim. Mas isso é papo para uma outra hora, e voltando à música, uma pessoa em especial é dono dessa canção na minha cabeça...
Ontem, ouvindo Futuros Amantes, sem dor, me imaginei não como o poeta que canta que deixou um amor subaquático, que virou um tesouro dos 7 mares. Não, me dei conta que nunca diria nada é pra já, ou deixaria meu amor para futuros amantes. Eu quero viver doses fortes de amor e até a última gota. Não sou o Chico sábio e tranquilão, mas certamente, poderia ser o escafandrista que descobre o Rio de Janeiro submerso. Fiquei pensando que visão fantástica de se encontrar em baixo d’água. Não teria a Lagoa, as praias, mas as montanhas seriam cavernas submarinas. A Pedra da Gávea continuaria misteriosa com seus olhos como uma esfinge e seu desafio mortal. O Pão de Açúcar estaria lá com o cabo apodrecido e intrigando os mergulhadores do futuro. O Arpoador seria um reduto de corais e peixes ornamentais belíssimos que se esconderiam nas pedras. Será que os arcos da Lapa estariam lá no fundo do oceano, coberto de algas? E Santa Teresa, e a Rocinha?
Continuaria a minha viagem olhando tudo ao redor, mantendo-me um escafandrista maravilhado, reviraria tudo e quando encontrasse o Cristo Redentor, eu pararia atônita. Saberia se tratar de um totem, de algo importante naquela sociedade perdida. Olharia sem medo dentro dos seus olhos de concreto e através deles, enxergaria dentro de mim a verdade que nunca consegui ver no espelho. Depois, eu estenderia os braços, repetindo o gesto dessa misteriosa figura e emergiria feliz. Não haveria mais necessidade de se procurar nada, naquele momento de braços abertos nadando sobre o Rio de Janeiro eu entenderia o amor que o Chico deixou na canção e faria as pazes com o mundo, respirando ar pelo nariz. Selaria para sempre uma amizade com o universo e comigo mesma e saberia que sempre há um lugar para ser feliz. E esse gesto de abrir os braços para o universo, que essa sociedade esquecida colocava num alto da montanha era uma maneira de encarar a vida e suas contradições. A partir de então tentaria fazer isso para minhas questões e para as pessoas ao meu redor. No início iam estranhar essa minha personalidade tão easygoing, tão alto-astral. Mas com o tempo, iriam entender essa minha vontade de abraçar o mundo.
Ainda bem que não preciso esperar o Rio sumir e sumirem os cariocas, o Chico, o Caetano, ou quem me faz lembrar essa música, para querer abraçar o mundo. Posso tentar agora, mas mudar, mais do que tudo na vida dá um medo disfarçado de preguiça. No entanto, não custa começar, tentar aos poucos, abraçando as coisas aqui e ali, com o tempo e com a prática eu pegaria o jeito. Afinal, nada é pra já.
Ontem, ouvindo Futuros Amantes, sem dor, me imaginei não como o poeta que canta que deixou um amor subaquático, que virou um tesouro dos 7 mares. Não, me dei conta que nunca diria nada é pra já, ou deixaria meu amor para futuros amantes. Eu quero viver doses fortes de amor e até a última gota. Não sou o Chico sábio e tranquilão, mas certamente, poderia ser o escafandrista que descobre o Rio de Janeiro submerso. Fiquei pensando que visão fantástica de se encontrar em baixo d’água. Não teria a Lagoa, as praias, mas as montanhas seriam cavernas submarinas. A Pedra da Gávea continuaria misteriosa com seus olhos como uma esfinge e seu desafio mortal. O Pão de Açúcar estaria lá com o cabo apodrecido e intrigando os mergulhadores do futuro. O Arpoador seria um reduto de corais e peixes ornamentais belíssimos que se esconderiam nas pedras. Será que os arcos da Lapa estariam lá no fundo do oceano, coberto de algas? E Santa Teresa, e a Rocinha?
Continuaria a minha viagem olhando tudo ao redor, mantendo-me um escafandrista maravilhado, reviraria tudo e quando encontrasse o Cristo Redentor, eu pararia atônita. Saberia se tratar de um totem, de algo importante naquela sociedade perdida. Olharia sem medo dentro dos seus olhos de concreto e através deles, enxergaria dentro de mim a verdade que nunca consegui ver no espelho. Depois, eu estenderia os braços, repetindo o gesto dessa misteriosa figura e emergiria feliz. Não haveria mais necessidade de se procurar nada, naquele momento de braços abertos nadando sobre o Rio de Janeiro eu entenderia o amor que o Chico deixou na canção e faria as pazes com o mundo, respirando ar pelo nariz. Selaria para sempre uma amizade com o universo e comigo mesma e saberia que sempre há um lugar para ser feliz. E esse gesto de abrir os braços para o universo, que essa sociedade esquecida colocava num alto da montanha era uma maneira de encarar a vida e suas contradições. A partir de então tentaria fazer isso para minhas questões e para as pessoas ao meu redor. No início iam estranhar essa minha personalidade tão easygoing, tão alto-astral. Mas com o tempo, iriam entender essa minha vontade de abraçar o mundo.
Ainda bem que não preciso esperar o Rio sumir e sumirem os cariocas, o Chico, o Caetano, ou quem me faz lembrar essa música, para querer abraçar o mundo. Posso tentar agora, mas mudar, mais do que tudo na vida dá um medo disfarçado de preguiça. No entanto, não custa começar, tentar aos poucos, abraçando as coisas aqui e ali, com o tempo e com a prática eu pegaria o jeito. Afinal, nada é pra já.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Reluz
Gosto do mar
Da vista, do gozo
Do cheiro das tardes
de junho e das noites
de janeiro.
Gosto dos cabelos
tocando a cintura
Entroncar veios
E colar meus seios
Nos seus
Gosto de fitar
sem medo
o moço encabulado,
o gosto das maçãs
(do rosto)
Vermelhas e quentes.
Gosto de ouvir rente
Batidas de um coração
Mergulhar e
Só abrir os olhos
Debaixo da imensidão
preta
Aparecer à noite
E ser a última
A apagar a luz
Gosto daquilo
que nem tudo ouro
E a mim seduz.
Da vista, do gozo
Do cheiro das tardes
de junho e das noites
de janeiro.
Gosto dos cabelos
tocando a cintura
Entroncar veios
E colar meus seios
Nos seus
Gosto de fitar
sem medo
o moço encabulado,
o gosto das maçãs
(do rosto)
Vermelhas e quentes.
Gosto de ouvir rente
Batidas de um coração
Mergulhar e
Só abrir os olhos
Debaixo da imensidão
preta
Aparecer à noite
E ser a última
A apagar a luz
Gosto daquilo
que nem tudo ouro
E a mim seduz.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Os sinos dobram às 6 da tarde
Adoro morar perto de uma igreja católica. Não porque são bonitas ou me dão paz ou qualquer outro motivo parecido. Gosto de estar perto delas porque às seis horas de tarde elas tocam o sino incessantemente lembrando que são seis horas. Sempre me encantei com a beleza de rituais e esse ding dong de seis horas da tarde me lembra que não estamos sozinhos nesse mundo, vivendo apenas as nossas vidas. É como se fosse um grito do mundo para mim, me dizendo que “a verdade está lá fora”, de que é preciso sair de casa e olhar um pouco ao nosso redor.
Quando eu era criança, minha bisavó, hoje centenária, costumava se retirar no quarto, sentar na cadeira de balanço e ouvir no rádio a “Ave-Maria”. Eu não fazia idéia do que era aquilo, apenas me lembro que achava muito sério a pessoa ficar quieta no escuro do quarto ouvindo o rádio, e rezando pelas pessoas. Lembro que ficava um silêncio em casa, em respeito àquele momento solene. Eu sempre passava correndo pela porta do quarto dela nesses momentos. Tinha medo que um dia ela me fizesse entrar e ficar naquela solenidade escura com ela. Tinha medo do escuro e tinha também medo porque algumas coisas que eu não compreendia estavam naquele quarto com ela. Tinha medo, mas ficava sempre fascinada por aquilo, passava correndo pela porta e via a sua sombra se balançando, mas sempre passava pela porta e olhava.
O café da tarde era sempre depois desse momento sagrado e sentávamos todos à mesa, já resguardados pela oração da matriarca. Hoje ainda nos sentamos à mesa por volta das seis da tarde, minha vózinha ainda está conosco e sempre fala “chega chega chega” assim que começamos a servir o café, mas ela não ouve mais a Ave-Maria, nem fica sozinha rezando no quarto. Acho que agora ela é quem tem medo de ficar sozinha num quarto escuro. Aquela voz catedrática que vinha do rádio no canto do quarto está muda. O que mais terá emudecido nesses 20 anos? Só nesses momentos em que os sinos dobram aqui perto de casa é que lembro que às seis horas se fazia silêncio, se rezava baixinho e se comia o pão agradecido e feliz, certos de que há mistérios dos quais não conhecemos e nunca saberemos ao certo.
Quando eu era criança, minha bisavó, hoje centenária, costumava se retirar no quarto, sentar na cadeira de balanço e ouvir no rádio a “Ave-Maria”. Eu não fazia idéia do que era aquilo, apenas me lembro que achava muito sério a pessoa ficar quieta no escuro do quarto ouvindo o rádio, e rezando pelas pessoas. Lembro que ficava um silêncio em casa, em respeito àquele momento solene. Eu sempre passava correndo pela porta do quarto dela nesses momentos. Tinha medo que um dia ela me fizesse entrar e ficar naquela solenidade escura com ela. Tinha medo do escuro e tinha também medo porque algumas coisas que eu não compreendia estavam naquele quarto com ela. Tinha medo, mas ficava sempre fascinada por aquilo, passava correndo pela porta e via a sua sombra se balançando, mas sempre passava pela porta e olhava.
O café da tarde era sempre depois desse momento sagrado e sentávamos todos à mesa, já resguardados pela oração da matriarca. Hoje ainda nos sentamos à mesa por volta das seis da tarde, minha vózinha ainda está conosco e sempre fala “chega chega chega” assim que começamos a servir o café, mas ela não ouve mais a Ave-Maria, nem fica sozinha rezando no quarto. Acho que agora ela é quem tem medo de ficar sozinha num quarto escuro. Aquela voz catedrática que vinha do rádio no canto do quarto está muda. O que mais terá emudecido nesses 20 anos? Só nesses momentos em que os sinos dobram aqui perto de casa é que lembro que às seis horas se fazia silêncio, se rezava baixinho e se comia o pão agradecido e feliz, certos de que há mistérios dos quais não conhecemos e nunca saberemos ao certo.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Cinema, romantismo e realidade
Essa semana eu vi uns filmes pesadões, estilo prozac, que são lindos, fazem bem, mas vêm acompanhados de uma tristeza, diegética e extra diegética que muitas vezes te derrubam de sua posição confortável da sala de cinema. Os filmes Gran Torino e O casamento de Rachel fizeram isso comigo. Poucas vezes o cinema americano me fez pensar tanto sobre o mundo, seus rumos e suas/nossas pequenas tragédias.
No entanto, toda semana tenho aula sobre musicais, que tenta me mostrar que essa moeda chamada mundo tem dois lados, e muitas vezes me faz recobrar a fé na humanidade, cantarolando a canção final de cada filme. Confesso que musicais muitas vezes funcionam melhor que religião para me colocarem em estado de graça. Como assistir a O Casamento do Meu Melhor Amigo ou Vamos Dançar sendo minimamente romântico e não dar um suspiro profundo e um sorriso para o horizonte? Os problemas só começam depois desse suspiro, desse sorriso e voltamos para o mundo real (ou a sociedade de controle, como disse uma amiga minha foucaultiana).
Eu sempre gostei desse tipo de filme que te suspende da realidade, te coloca por alguns minutos fora de si, uma espécie de purificação das mazelas que encontramos no dia-a-dia. Tenho noção de que aliena, de que esquece o mendigo que pede esmola na porta do cinema ou das crianças que assaltam na saída, mas esse é o objetivo, te colocar por alguns momentos longe disso tudo. Longe, tão longe, tão absorta que você é capaz de acreditar que tudo aquilo pode ser verdade. Como canta Fred Astaire no fim de Cinderela em Paris “He loves and she loves so why can’t you love and I love too” coerente e convincente. Todo esse mundo de escapismo que conscientemente parece uma bobagem, um programa inofensivo depois dessas tardes lindíssimas de outono no Rio, são um verdadeiro veneno, e não um elixir para encarar a realidade. Essas bobagens românticas mexem tão profundamente com as nossas emoções, que passam a ser algo desejável e possível no universo feminino.
Romantismo, cinema e realidade, sempre foi uma questão para mim, pelo menos nos meus diários, acredito que o romantismo no cinema moldou muito da minha forma de agir, pensar e principalmente, esperar da vida. A verdade é que se cria um choque de ordem ao viver a realidade ao mesmo tempo em que estamos tão acostumadas aqueles códigos que assistimos no cinema, e desde criança, que nos levam a acreditar que o amor está em cada esquina, puro, indolor e arrebatador. Nem falo nos “filmes de princesas”, mas Tarzan da Disney, por exemplo, nos leva a acreditar num estatuto de amor e de ideal de vida, que ninguém espera ver muito num filme que gira em torno de macacos. Love is in the air, gritam e quando olhamos ao redor, só vemos pessoas, e muitas vezes as interpretações erradas ou tendenciosas levam a verdadeiras catástrofes, tendo a destruição do amor-próprio como a mais leve delas.
Pôr-do-sol, boa conversa, e, insisto, essas tardes de outono, elementos desse universo romântico, predominantemente feminino, levam pessoas iniciadas nesses códigos a interpretarem esses eventos como índices de amor verdadeiro. Aquele que o Fred Astaire canta e dança para a Ginger Rogers, aquele que a Julia Roberts já teve às dezenas, aquele que você insiste em buscar no seu presente, passado ou futuro.
Buscam-se esses signos cinematográficos na vida porque se deseja a felicidade mostrada na tela, como uma promessa de vida eterna. E as mulheres repetem, muitas vezes com as amigas, esse mantra do simbólico romântico como ideal de vida. Repetem porque “a felicidade é o desejo de repetição” como diz Kundera. Pergunto, será essa promessa de salvação romântica apenas um mito? Não será o amor romântico possível em nenhum espaço/tempo da nossa realidade?
Infelizmente não sei responder a essas questões. Acontece que não tenho a imparcialidade necessária para seguir investigando, pois sofro de um romantismo incurável alimentado pelo cinema americano, pela música, pela literatura, e que se retroalimenta no universo feminino. Só no universo feminino mesmo para se acreditar nessas coisas... por isso Lacan diz que a mulher não existe. Essas mulheres não existem mesmo....
PS: para as minhas amigas lindas e o universo feminino que construímos juntas
No entanto, toda semana tenho aula sobre musicais, que tenta me mostrar que essa moeda chamada mundo tem dois lados, e muitas vezes me faz recobrar a fé na humanidade, cantarolando a canção final de cada filme. Confesso que musicais muitas vezes funcionam melhor que religião para me colocarem em estado de graça. Como assistir a O Casamento do Meu Melhor Amigo ou Vamos Dançar sendo minimamente romântico e não dar um suspiro profundo e um sorriso para o horizonte? Os problemas só começam depois desse suspiro, desse sorriso e voltamos para o mundo real (ou a sociedade de controle, como disse uma amiga minha foucaultiana).
Eu sempre gostei desse tipo de filme que te suspende da realidade, te coloca por alguns minutos fora de si, uma espécie de purificação das mazelas que encontramos no dia-a-dia. Tenho noção de que aliena, de que esquece o mendigo que pede esmola na porta do cinema ou das crianças que assaltam na saída, mas esse é o objetivo, te colocar por alguns momentos longe disso tudo. Longe, tão longe, tão absorta que você é capaz de acreditar que tudo aquilo pode ser verdade. Como canta Fred Astaire no fim de Cinderela em Paris “He loves and she loves so why can’t you love and I love too” coerente e convincente. Todo esse mundo de escapismo que conscientemente parece uma bobagem, um programa inofensivo depois dessas tardes lindíssimas de outono no Rio, são um verdadeiro veneno, e não um elixir para encarar a realidade. Essas bobagens românticas mexem tão profundamente com as nossas emoções, que passam a ser algo desejável e possível no universo feminino.
Romantismo, cinema e realidade, sempre foi uma questão para mim, pelo menos nos meus diários, acredito que o romantismo no cinema moldou muito da minha forma de agir, pensar e principalmente, esperar da vida. A verdade é que se cria um choque de ordem ao viver a realidade ao mesmo tempo em que estamos tão acostumadas aqueles códigos que assistimos no cinema, e desde criança, que nos levam a acreditar que o amor está em cada esquina, puro, indolor e arrebatador. Nem falo nos “filmes de princesas”, mas Tarzan da Disney, por exemplo, nos leva a acreditar num estatuto de amor e de ideal de vida, que ninguém espera ver muito num filme que gira em torno de macacos. Love is in the air, gritam e quando olhamos ao redor, só vemos pessoas, e muitas vezes as interpretações erradas ou tendenciosas levam a verdadeiras catástrofes, tendo a destruição do amor-próprio como a mais leve delas.
Pôr-do-sol, boa conversa, e, insisto, essas tardes de outono, elementos desse universo romântico, predominantemente feminino, levam pessoas iniciadas nesses códigos a interpretarem esses eventos como índices de amor verdadeiro. Aquele que o Fred Astaire canta e dança para a Ginger Rogers, aquele que a Julia Roberts já teve às dezenas, aquele que você insiste em buscar no seu presente, passado ou futuro.
Buscam-se esses signos cinematográficos na vida porque se deseja a felicidade mostrada na tela, como uma promessa de vida eterna. E as mulheres repetem, muitas vezes com as amigas, esse mantra do simbólico romântico como ideal de vida. Repetem porque “a felicidade é o desejo de repetição” como diz Kundera. Pergunto, será essa promessa de salvação romântica apenas um mito? Não será o amor romântico possível em nenhum espaço/tempo da nossa realidade?
Infelizmente não sei responder a essas questões. Acontece que não tenho a imparcialidade necessária para seguir investigando, pois sofro de um romantismo incurável alimentado pelo cinema americano, pela música, pela literatura, e que se retroalimenta no universo feminino. Só no universo feminino mesmo para se acreditar nessas coisas... por isso Lacan diz que a mulher não existe. Essas mulheres não existem mesmo....
PS: para as minhas amigas lindas e o universo feminino que construímos juntas
domingo, 17 de maio de 2009
Oito é o símbolo do infinito - para o filme das mulheres
Somos ao avesso, o infinito:
Universos em expansão
Agüentando a pressão
dos contornos femininos.
Universos em expansão
Agüentando a pressão
dos contornos femininos.
sábado, 16 de maio de 2009
Choque de ordem
Limparam todo o caos
que se instaurava
há tempos em mim.
De repente
acordei sem
angústias, sofrimento
ansiedade, vontade
levaram tudo na
enxurrada
e do nada
que ficou
percebi
que me levaram
também daqui.
que se instaurava
há tempos em mim.
De repente
acordei sem
angústias, sofrimento
ansiedade, vontade
levaram tudo na
enxurrada
e do nada
que ficou
percebi
que me levaram
também daqui.
domingo, 10 de maio de 2009
Dia das mães
Hoje é dia das mães e dia das mães sempre foi uma data importante na minha família. A minha bisavó Nina, a maior figura que eu já conheci e ao mesmo tempo a grande figura materna da minha mente, fazia aniversário perto do dia das mães e sempre se comemorava seu aniversário no domingo, reunia a família toda num almoço na casa da minha avó, outra grande imagem de mãe que eu tenho.
Numa data tão importante, há uns dezessete anos atrás, nossa eu to velha... Mas há anos atrás eu resolvi fazer uma grande surpresa para o dia das mães. Era uma grande coisa para mim, eu que sempre fui tímida, quieta, resolvi entregar cartões para todas as mães da minha família. Para isso, fiz uns versinhos bobos de menina de oito anos que rimava amor com flor e alguma coisa sobre mãe, mas que para mim, era um grande acontecimento, já que eu iria mostrar pela primeira vez os meus versos publicamente. Aqueles cartões de dia das mães eram a minha primeira publicação, nunca eu tinha mostrado para ninguém as coisas que eu escrevia, que naquela época, não deviam ser muitas.
Não só fiquei encarregada dos versos, mas era responsável pela concepção do agrado, e fiz todo design, que constituía em uma folha A4 que cortada ao meio (a cada folha eu fazia 2) com um coração no meio, com os versos dentro do coração, e pintei em volta com lápis de cor. Em baixo, tinham duas linhas, uma eu escrevia o meu nome e na de baixo o nome da mãe que receberia, num estilizado De Para. Estava muito orgulhosa de mim, eu não só tive coragem de me mostrar artisticamente, como assumi a minha falta de jeito para pintar e desenhar e a minha letra feia, que sempre foi um problema para mim.
Não sei que ímpeto de coragem foi esse, de me mostrar tanto de uma vez só. Eu já dançava, me apresentava em vários lugares com “as meninas do Jazz”, mas não tinha coragem de mostrar nada além do meu rebolado, mas naquele ano, seria diferente, fui com a cara e a coragem e sem medo de ser feliz ou usar clichês. O poema era “Mãe, nome de amor, mulher de magia, e toda mãe é uma flor”. Ou alguma coisa parecida.
Fiz os cartões, e usei um critério objetivo para as destinatárias: aquelas que estariam na festa daquele domingo de 1992, e eram mães. Minha avó Dorinha me ajudava com as tias mais velhas que eu não sabia se tinham ou não filhos. E assim eu fiz vários cartões, não sei quantos. Perto da data, orgulhosa de mim mesma, fui mostrar a surpresa para a minha grande amiga e cobaia nas minhas coreografias que eu insistia em inventar e ensaiar todas as noites, a minha madrinha.
Eu espera agradar pelo gesto fofo e singular que estava praticando, mas provavelmente, eu queria mais era fazer propaganda da minha própria concepção que agradar às mães. Sabe aquele altruísmo egoísta próprio de artistas? Já havia um embrião disso tudo naquela época. Só que a minha Dinha ao olhar os cartões me repreendeu: “Como você não fez para sua Dindinha? Eu sou quase uma mãe pra você?”. E ela falava a verdade. Naquela época, ela praticamente morava na minha casa, e cuidava de mim como uma filha. Eu não tinha feito para ela, porque na época, ela devia ter a minha idade hoje e não era mãe. Foi uma dura lição que aprendi sobre usar critérios objetivos e excludentes, e na faculdade de Direito, anos mais tarde, eu tentava mudar esse tipo de classificação ao me dedicar a estudar o Direito Alternativo e essas coisas que não tem futuro. Aprendi também naquele dia que nem sempre se agrada com o que fazemos, e fiquei realmente triste de não ter feito para a minha dindinha. Resolvi, então, não entregar a ninguém aqueles cartões. Guardei na gaveta e levei anos para mostrar para qualquer outra pessoa os poemas que fazia.
Anos mais tarde, na adolescência, eu também com medo de que alguém lesse os meus poemas que eu havia escrito na tenra idade dos 12, 13 e 14 anos, apaguei o disquete que há anos eu colocava tudo que eu escrevia, perdendo para sempre os poemas apaixonados dos amores fugazes e platônicos daqueles anos. Depois, com medo do meu namorado ciumento, escondi meu caderno poemas dentro do cesto de roupa suja, para ele não ver que eu continuava a escrever para o ex. Meus poemas sempre ficaram assim, em gavetas e armários temendo a crítica.
Ano passado, arrumando uma gaveta encontrei desenhos de quando eu era criança e lá estavam os cartões. Eu havia esquecido dessa história, mas no momento em que olhei aquele coração com versos, lembrei de tudo. Hoje escrevo versos na internet, resolvi publicar tudo que crio, não porque me acho o máximo, mas porque poemas na gaveta são como ressentimentos e auto-repressão guardadas. Não quero isso, quero dançar como dançava quando era criança e todo mundo achava engraçadinho. Quero dançar palavras.
Hoje, a mesma Dinha, que hoje tem uma filha que eu amo muito, veio me ver e reclamou enquanto eu estou aqui escrevendo esse texto: “Você nem me deu feliz dia das mães”. Ainda bem que hoje, minhas gavetas estão abertas.
Numa data tão importante, há uns dezessete anos atrás, nossa eu to velha... Mas há anos atrás eu resolvi fazer uma grande surpresa para o dia das mães. Era uma grande coisa para mim, eu que sempre fui tímida, quieta, resolvi entregar cartões para todas as mães da minha família. Para isso, fiz uns versinhos bobos de menina de oito anos que rimava amor com flor e alguma coisa sobre mãe, mas que para mim, era um grande acontecimento, já que eu iria mostrar pela primeira vez os meus versos publicamente. Aqueles cartões de dia das mães eram a minha primeira publicação, nunca eu tinha mostrado para ninguém as coisas que eu escrevia, que naquela época, não deviam ser muitas.
Não só fiquei encarregada dos versos, mas era responsável pela concepção do agrado, e fiz todo design, que constituía em uma folha A4 que cortada ao meio (a cada folha eu fazia 2) com um coração no meio, com os versos dentro do coração, e pintei em volta com lápis de cor. Em baixo, tinham duas linhas, uma eu escrevia o meu nome e na de baixo o nome da mãe que receberia, num estilizado De Para. Estava muito orgulhosa de mim, eu não só tive coragem de me mostrar artisticamente, como assumi a minha falta de jeito para pintar e desenhar e a minha letra feia, que sempre foi um problema para mim.
Não sei que ímpeto de coragem foi esse, de me mostrar tanto de uma vez só. Eu já dançava, me apresentava em vários lugares com “as meninas do Jazz”, mas não tinha coragem de mostrar nada além do meu rebolado, mas naquele ano, seria diferente, fui com a cara e a coragem e sem medo de ser feliz ou usar clichês. O poema era “Mãe, nome de amor, mulher de magia, e toda mãe é uma flor”. Ou alguma coisa parecida.
Fiz os cartões, e usei um critério objetivo para as destinatárias: aquelas que estariam na festa daquele domingo de 1992, e eram mães. Minha avó Dorinha me ajudava com as tias mais velhas que eu não sabia se tinham ou não filhos. E assim eu fiz vários cartões, não sei quantos. Perto da data, orgulhosa de mim mesma, fui mostrar a surpresa para a minha grande amiga e cobaia nas minhas coreografias que eu insistia em inventar e ensaiar todas as noites, a minha madrinha.
Eu espera agradar pelo gesto fofo e singular que estava praticando, mas provavelmente, eu queria mais era fazer propaganda da minha própria concepção que agradar às mães. Sabe aquele altruísmo egoísta próprio de artistas? Já havia um embrião disso tudo naquela época. Só que a minha Dinha ao olhar os cartões me repreendeu: “Como você não fez para sua Dindinha? Eu sou quase uma mãe pra você?”. E ela falava a verdade. Naquela época, ela praticamente morava na minha casa, e cuidava de mim como uma filha. Eu não tinha feito para ela, porque na época, ela devia ter a minha idade hoje e não era mãe. Foi uma dura lição que aprendi sobre usar critérios objetivos e excludentes, e na faculdade de Direito, anos mais tarde, eu tentava mudar esse tipo de classificação ao me dedicar a estudar o Direito Alternativo e essas coisas que não tem futuro. Aprendi também naquele dia que nem sempre se agrada com o que fazemos, e fiquei realmente triste de não ter feito para a minha dindinha. Resolvi, então, não entregar a ninguém aqueles cartões. Guardei na gaveta e levei anos para mostrar para qualquer outra pessoa os poemas que fazia.
Anos mais tarde, na adolescência, eu também com medo de que alguém lesse os meus poemas que eu havia escrito na tenra idade dos 12, 13 e 14 anos, apaguei o disquete que há anos eu colocava tudo que eu escrevia, perdendo para sempre os poemas apaixonados dos amores fugazes e platônicos daqueles anos. Depois, com medo do meu namorado ciumento, escondi meu caderno poemas dentro do cesto de roupa suja, para ele não ver que eu continuava a escrever para o ex. Meus poemas sempre ficaram assim, em gavetas e armários temendo a crítica.
Ano passado, arrumando uma gaveta encontrei desenhos de quando eu era criança e lá estavam os cartões. Eu havia esquecido dessa história, mas no momento em que olhei aquele coração com versos, lembrei de tudo. Hoje escrevo versos na internet, resolvi publicar tudo que crio, não porque me acho o máximo, mas porque poemas na gaveta são como ressentimentos e auto-repressão guardadas. Não quero isso, quero dançar como dançava quando era criança e todo mundo achava engraçadinho. Quero dançar palavras.
Hoje, a mesma Dinha, que hoje tem uma filha que eu amo muito, veio me ver e reclamou enquanto eu estou aqui escrevendo esse texto: “Você nem me deu feliz dia das mães”. Ainda bem que hoje, minhas gavetas estão abertas.
sábado, 9 de maio de 2009
Amor em espécie
Não trabalho com crédito,
débito, ou acordo.
Nesse pregão onde coloco
meu coração em risco,
aceito apenas
Amor em espécie.
Mas por hoje,
posso ficar com
esse título firmado
na verborragia
silenciosa
dos nossos olhares.
débito, ou acordo.
Nesse pregão onde coloco
meu coração em risco,
aceito apenas
Amor em espécie.
Mas por hoje,
posso ficar com
esse título firmado
na verborragia
silenciosa
dos nossos olhares.
sábado, 2 de maio de 2009
Cheguei em casa.
Encontrei a sua cara
Amassada de dormir
Olhos pequenos de remela
e lágrimas de sono.
Um sorriso.
Meu coração acelerava
Mais que a formula 1
Na TV de madrugada
– um café?
– não.
Quero apenas
Deitar, rolar na cama e,
querendo, sem querer,
subir em você,
beijar o canto esquerdo
da sua boca,
encostar o meu nariz
no teu
e dizer: “boa noite, moço”,
sorrir
e depois dormir
cheirando o teu pescoço.
Encontrei a sua cara
Amassada de dormir
Olhos pequenos de remela
e lágrimas de sono.
Um sorriso.
Meu coração acelerava
Mais que a formula 1
Na TV de madrugada
– um café?
– não.
Quero apenas
Deitar, rolar na cama e,
querendo, sem querer,
subir em você,
beijar o canto esquerdo
da sua boca,
encostar o meu nariz
no teu
e dizer: “boa noite, moço”,
sorrir
e depois dormir
cheirando o teu pescoço.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
O feminino e o caos
Parcelo as minhas dores
em poemas a perder de vista.
Você pede calma,
me manda ser tranquila
eu explico que nunca vi controle
reinando
na metade fêmea do artista.
em poemas a perder de vista.
Você pede calma,
me manda ser tranquila
eu explico que nunca vi controle
reinando
na metade fêmea do artista.
domingo, 26 de abril de 2009
Cauby, Garrel e Tecnicolor
Chorar até as lágrimas molharem o pescoço .Acordar com aquele olho inchado, não comer, não dormir, desligar o telefone. Depois, perceber que era mais uma egotrip descontrol e voltar à vida sem nenhuma seqüela. Quantas mulheres já não fizeram isso. Ouvir Cauby, escrever cartas para não entregar, e na segunda-feira se entregar sem medo à própria rotina, como depois de um sonho ruim. Queria entender a necessidade dessas viagens ao inferno que algumas vezes fazemos, sem muita necessidade. Serão os hormônios, ou a nossa necessidade de encontrar os próprios demônios? Não sei. Mas sei que essas viagens clareiam um pouco a nossa percepção, nos fazem pensar em coisas que não pensaríamos normalmente.
Assisti “A fronteira da Alvorada” de Phillippe Garrel e provavelmente foi o que desencadeou essa egotrip novinha em folha. O filme fala sobre várias facetas do amor e da felicidade. A felicidade burguesa aparece como meta e ao mesmo tempo motivo de fuga. O amor romântico e o amor doentio desfilam nos mais lindos tons de cinza da fotografia. Nada é total, nenhuma felicidade é plena. Essas são as lentes da nossa geração complicada, que não luta por nenhum objetivo coletivo e acaba um pouco perdida nos desígnios incertos do amor, que parece ser o único tema universal que ainda prevalece.
Depois dessa, prefiro voltar aos anos 50, ver uns musicais com o Fred Astaire e me isolar no Tecnicolor. Não há crise ao som de Cole Porter, esse sim, atemporal.
Assisti “A fronteira da Alvorada” de Phillippe Garrel e provavelmente foi o que desencadeou essa egotrip novinha em folha. O filme fala sobre várias facetas do amor e da felicidade. A felicidade burguesa aparece como meta e ao mesmo tempo motivo de fuga. O amor romântico e o amor doentio desfilam nos mais lindos tons de cinza da fotografia. Nada é total, nenhuma felicidade é plena. Essas são as lentes da nossa geração complicada, que não luta por nenhum objetivo coletivo e acaba um pouco perdida nos desígnios incertos do amor, que parece ser o único tema universal que ainda prevalece.
Depois dessa, prefiro voltar aos anos 50, ver uns musicais com o Fred Astaire e me isolar no Tecnicolor. Não há crise ao som de Cole Porter, esse sim, atemporal.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Dia de Folga
Hoje de manhã
li o jornal,
lavei os sapatos,
esfreguei as bolsas,
arrumei as gavetas.
À tarde fui ao médico
ao DETRAN,
passei nos Correios,
liguei para o advogado
e para a Prefeitura.
À noite peguei um cineminha.
Juro, nunca me senti tão livre
Em toda minha vida.
li o jornal,
lavei os sapatos,
esfreguei as bolsas,
arrumei as gavetas.
À tarde fui ao médico
ao DETRAN,
passei nos Correios,
liguei para o advogado
e para a Prefeitura.
À noite peguei um cineminha.
Juro, nunca me senti tão livre
Em toda minha vida.
Assinar:
Postagens (Atom)



