quarta-feira, 10 de maio de 2017

Signos inegáveis do outono começam a aparecer na minha sala. Folhas caídas amareladas, no chão sem eu nunca as ter plantado. Achava que o outono fosse coisa só do outro lado do planeta, mas descobri que a minha sala pode conter o outro lado do planeta, nessa época do ano.
Um parque do futuro quem sabe da sinais no meu sinteco.
Não páro de encontrá-las. Começo a varrer e descubro mais. Como os cabelos que te caem e só percebemos quando varremos a casa. Alguns momentos eu penso se vou ficar careca.
Então, imagino árvores peladas na paisagem.
mas não vejo pelas ruas.
até agora só folhas caídas.
E besouros que fingem ser ventiladores de teto

segunda-feira, 3 de abril de 2017



Às vezes abro os olhos no meio do beijo. É um hábito de menina. E comecei a reparar como ele me beija. É profundo, é intenso. Ele se entrega e nem percebe de olhos fechados.Já juramos num altar, já nos fizemos homem e mulher tantas vezes e mesmo assim, é beijando de olhos fechados que consigo ver, às vezes em microssegundos antes que ele perceba meus olhos. Vejo. É bonito. É uma imagem que só eu posso ver, dos meus olhos. àquela distância ínfima. 
Às vezes abrimos os olhos juntos. E começamos a rir. É engraçado querer surpreender o outro, roubar no jogo do beijo de olhos fechados e ser surpreendido. Aí ficamos com aquela cara de bobos. Parecendo que mal nos conhecemos, envergonhados. Nunca perguntei o que ele acha desses momentos, nem vou.
Talvez, a gente se reconheça, mais uma vez ao final de cada beijo. Muito prazer, encantada. Um namastê particular: cumprimentamos o reino de um que habita dentro do outro.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

catapultas
kronenbier
caralhoaquatro
pirassununga
catiripapo
marrakech
pterodáctilo
saliência
cromossomo

quimera pletora prontamente cratera câncro

cantarolar

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

1992

A piscina de plástico montada no quintal já juntava alguns insetos, folhinhas e vestígios de poeira da rua. Era o momento de trocar a água, ou talvez desmontá-la já que a menina vinha espaçando os banhos de quintal. Ela queria dançar. Dançava o tempo todo pela casa e quando ninguém estava olhando, se sentia à vontade para cantar em voz alta. Tinha vergonha, era tímida, mas sonhava com os palcos. Tinha, na época, 9 anos e gostava de passar a maior parte do tempo na casa com a sua avó que estava sempre ocupada arrumando a casa, lavando o quintal, tirando os cocôs da cachorra. Não tinha mais medo do lobo mau de blusa listrada e suspensório que a ficava no corredor que dava para a rua. Não tinha mais os pintinhos que ganhara na troca do garrafão. Eles haviam morrido dois anos atrás, mas ainda era e ainda é forte o cheiro fedido daquelas criaturas queridas. Tinha conversas lindas e banais com a avó e aprendia muita coisa com o avô. Aprendia muito sobre futebol e sobre as televisões que ele consertava. O avô tinha uma teoria sobre uniformes reservas dos times: era para não confundir com os outros jogadores, sobretudo, quando se via a partida em televisores em preto e branco. Nunca verificou se era verdade. Ainda sente o cheiro de válvulas queimadas que o avô trocava. Ainda é claro o ruído da tv que se demorava a ligar. Aqueles cinco segundos que nos separavam de saber se o serviço estava terminado ou não.
Gostava daquela casa, como poucas coisas em sua pouca vida. As festas na garagem, brincar de comidinha. Mas naquele dia específico, a menina chorava. Chorava muito e parecia encher a piscina de plástico de lágrimas. Tinha acabado de descobrir que não iria dançar na próxima apresentação. Tinha sido cortada. A avó dizia que ela era muito menina e esse era o motivo. Não acreditou muito, mas nunca verificou essa informação também. Na infância, ela se contentava com o que os avós diziam.
A menina chorou a tarde toda, mas em alguns momentos, ela acha que ainda está lá chorando, como se esse momento nunca tivesse acabado. Como se fosse possível, imediatamente, se transportar para essa tarde em novembro de 92. Toda vez que ela vai para lá, ela vê o olhar misericordioso da avó que joga água no quintal com uma mangueira verde. A cachorrinha que olhava curiosa e de lado, quase chorando em solidariedade. Já não explica mais o seu choro, apenas sente as últimas lágrimas que descem e uma vontade imensa de parar de chorar.
Naquele dia, ouviu o barulho conhecido de um carro e a cachorra latiu. A menina sabia e sempre soube que era o som do fusca azul do avô. Correu para a casa para limpar o rosto. Ela não aguentaria a dor do avô ao vê-la sofrer. Lavou os rosto, se olhou outra vez no espelho. Já era o momento de correr até a garagem para recebê-lo. E com um sorriso esforçado ela fez a mesma pergunta que fazia todo fim de tarde quando o avô voltava: "trouxe hoje?". E o avô lhe entregou feliz um saquinho de papel com balas e doces. Era um código, um momento de cumplicidade que os dois partilhavam e performavam todos os dias. A menina, então, sorriu de verdade. E entrou para a casa para ligar a televisão de onde sairam vozes que se demoraram a virar imagens em preto e branco.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Rio seco

Se um rio claro que sofre de seca
pedisse passagem para me atravessar
eu falaria "com licença"
acho que seria um pouco rio um pouco calor
um tanto mulher
ancestral
como todos os acidentes que nos atravessam
como saudades esquecidas
e bilhetes de amor perdidos

quantos rios secos não nos tentam atravessar
todos os dias
quantas cascatas celestes
inventam de subir de nós

Não quero almoçar,
estou sem fome
não é nada não
satisfeita, só isso
engoli um rio
que não existe

sexta-feira, 13 de março de 2015

Na casa nova
Antigos cheiros
São descobertos

O sofá tinha um
Cheiro irresistível
De bicicleta nova

Deu vontade de passear

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A arquitetura dos sonhos

Costumo me interessar pela arquitetura dos lugares com os quais sonho. Normalmente, eu junto duas ou mais casas que conheci, cada qual com pelo menos um cômodo ou um morador e misturo numa arquitetura nova. Algo que já tinha reparado antes é que essa construção onírica é possível através do cinema:filmar lugares distintos e colocá-los em continuidade. Essa noite sonhei com a casa antiga da minha avó, acho que mais precisamente, num período da casa, em que estava em obra para a construção de outra casa em cima. Eu tinha nove anos e o que me lembro bastante são os pelotis de madeira. Tinha um no meio da sala e eu achava aquilo bem divertido. (Certamente, queria subir como se fosse brincadeira de criança, mas nunca desobedeci meus avós). No sonho dessa noite tinham uns pelotis na garagem, mas era para o meu padrinho colocar cerca de 5 carros, com manobras loucas numa garagem em que só cabem no máximo da ocupação, 2. Lembro de estar na rua também, mas não era a rua hoje envelhecida, empobrecida, era aquela rua vívida da minha infância no início dos anos 90, com crianças brincando e vizinhas fofoqueiras. Entrei na casa para contar algo para minha mãe e minha avó e não consegui de jeito nenhum terminar de contar, pois me interrompiam sem cessar. Fui para a sala e já era um misto da sala da minha mãe, com a minha sala, com a outra casa que moramos na minha infância. Tinha uma cozinha que dava para a sala (com tapete, poltrona, mesa, bem cheia) e na cozinha tinha um cachorro. Um poodle preto, que na verdade não era poodle e quando me dei conta, a cachorra era na verdade bem grande. Quis imediatamente levá-la para passear, mas Camila estava lá em casa para conversar. Parecia ser a casa da minha mãe que tinha viajado. Não sei como, fui parar numa varanda com a qual sempre sonho. Tive poucos sonhos recorrentes na minha vida, e esse lugar vive voltando ao longo dos anos. È uma varanda grande, bem grande com um jardim enorme. Já sonhei que era paradisíco, com piscinas, chafarizes que iam caindo em sequência, mas na maior parte do tempo são só plantas mesmo, uma espreguiçadeira, e o balcão de onde posso olhar a rua. Algumas plantas caem do teto que fica em cima da cadeira. A outra parte, fica no sol. Mas nunca é muito sol nos sonhos: ou noite, ou fim de tarde, ou manhã bem cedo. Nunca senti desconforto nesse jardim de sonhos. O mais curioso é que esse jardim é sempre na minha casa. Moro lá, mas toda vez que olho sempre me surpreendo com a beleza e o tamanho do lugar. Algumas vezes sonho que é aqui em Santa Rosa, ou na rua que moro, ou na rua detrás (que não existe). às vezes parece um cenário de filme clássico sobre a antiguidade. Babilônia. Talvez, Egito. Mas às vezes parece um jardim que imagino ao ler romances românticos. Mas sempre sonho com ele na atualidade. O curioso é que sonho com esse lugar e sempre acordo.
Já pensei que se, com muita frequencia, misturo lugares que conheci no passado numa mesma casa, talvez eu conheça essa lugar. E não de imaginar só. De ter tido um jardim assim por onde já passei, vivi, amei em outros tempos.
De alguma forma essas arquiteturas loucas dizem muito sobre mim, minha vontade de juntar pessoas, lembranças, lugares e histórias novas. Esses lugares de sonho que visito à noite, ajudam a desconstruir uma saudade das coisas que vivi. Uma saudade boa de ter, e que se fosse ruim, poderia ser o único pesadelo que teria.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

escreviajar

Deslocamentos se aproximam
da escrita: são a mesma forma
de estar e não estar num lugar.
Sou agora um corpo escrito por
saudades de onde já passei
A viagem acaba
mas continua em mim
Assim como palavras guardadas
num diário de bordo.

As viagens que faço me escrevem

Inverness

People whisper
Children cry
I write and that's fine
The empty bus station
In the way to Liverpool
has no end
Down.
We've watched movies
Talked and fantasized
I wonder how I get to London.
I wonder when
I'll be back home.

An empty pub serves
invisibles stouts and ales.
A young black couple
eat hamburguers.

We acept in silence
the long hours that last
Perhaps, someone is
writing a poem.
The little city remains
Quiet
Offices "to let"
No cars go
Green lights with
No one to go

It seems we're the only people
In the road
Maybe in the world
People here are quite
Locked and safe in their sleep

The neon barber shop
tells me this life
I cannot see is
about to wake up

Are we a dream that
the whole city is having?
Will I be real
when they wake up?

I turn the lights down
And kept a journal
in the backpack
The bus got back to the road.
These tedious lines in the dark
that shake me like
A rocket chair
O pé direito alto
da biblioteca
É para os grandes balões
de pensamento que
saem das pessoas

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

saudade

em alguma ponta atlântica
do outro lado
uma menina
joga para o infinito
recados rabiscados
de saudade

em alguma costa
ao sul
um menino grande
sonha com caravelas
em origamis de guardanapo

Se encontram em algum
poema incompleto
rascunhado
entre dois portos do oceano.







Valsa do Universo

Cada lugar tem o seu ritmo, isso conseguimos perceber e aprender.

É o ritmo do lugar que engravida e dá forma a tudo: arquitetura, comida, calçadas, palmeiras, redes penduradas.

É preciso se demorar um pouco para pegar esse ritmo, nem que seja o suficiente para assoviar.

Quem viaja guarda dentro de si vários ritmos aprendidos.

E, querendo ou não, estamos sempre dançando.
amar alguém é entender seus cheiros fases cores e sorrisos nos olhos

travessias

descobri hoje que as profissões que
já atravessaram o meu querer
(astronauta, bailarina, freira missionária, diplomata)
sem no entanto encontrarem outra margem
são fruto da minha vital vontade
de atravessar o mundo

o amor é atravessar-se do inverso 
no outro que te atravessa
constante

atravessar é nosso hábito mais corriqueiro
porque a travessia é também
o caminhar silencioso de quem pensa
em travessias futuras
é o cantar tímido
do motor do barco


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A Bailarina

entre um passo e outro, da cozinha para a sala, o pé insistia numa altura inadequada, é possível que se diga, num passo de balé. Um rodopio para alcançar a privada, um pulo para se achar a frente da tv. Seu corpo dançava. Começou de um dia para o outro. Mas só acontecia em casa, quando estava só, no meio da tarde de quartas e sextas. Por vezes, se espantava quando um espelho captasse os movimentos. Era como se não dançasse só, mas para alguém que a observava e que também dançava com ela. Nesses momentos, dava um sorriso tímido, e, se o outro a olhasse mais uma vez, ficava na ponta dos pés, levantava sua saia imaginária e agradecia descendo as costas e levantando as mãos para trás. Conseguia até ouvir os aplausos. Era assim que se retirava do palco. Voltava, silenciosamente a lavar as louças.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

quando tinha dez anos, eu lembro que sonhava meio amarelado. Acho que hoje sonho mais pro azul, às vezes tenho sonhos brancos. Sei que sonho em gêneros narrativos. Já sonhei em comédia romântica, já sonhei filme policial, realismo fantástico, musical, em sitcom com gags e tudo, e com frequência sonho em animação, não tanto o traço (mas já sonhei algumas vezes também), mas a lógica narrativa da animação. Essa noite não lembrei dos meus sonhos. Dormi pouco. Pensei no filme que vi ontem que se chama "About Time" sobre um cara que consegue viajar no tempo. Lembrei que cadernos de anotação são a minha maneira de viajar no tempo. Fui atrás de um deles, por curiosidade, e estava tudo lá; o ano passado inteiro em estudos e compromissos. Num outro achei momentos marcantes recentes. Depois, encontrei uma frase sobre a cor dos meus sonhos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

só tardiamente percebi que o que me embolava a garganta, o que se recusava a sair no lugar onde, se eu fosse homem, haveria um pomo de adão, o que havia estacionado entre a fala, a água, a fome, o ar. Respirava ofegante, engolia com dificuldade. Até o remédio para má digestão desceu de costas pela garganta. Estava eu e minha avó, olhando a paisagem da janela, no corredor do hospital. Havíamos feito algumas vezes esse mesmo passeio na última semana. Ela continuava a me contar os mesmos fatos, apontava para os mesmos prédios, as mesmas árvores, as mesmas ruas do centro de niterói que eu já conhecia. Foi lá que apareceu o bolo. Não na paisagem repetida pela janela. Mas no momento em que me vi ao lado da minha avó, ouvindo as mesmas repetidas histórias. No momento em que me dei conta, que meu medo maior era que as histórias não mais se repetissem. Um temor que tudo, de repente, virasse passado. Antevia um futuro saudoso que me olhava da janela. Horas depois, chorei.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

saudade

já me vejo
em fotografias antigas
tiradas hoje.
As meninas a rir
das roupas que eu usava
nas fotos.
O digital melancólico
num trem pro norte:
você passa e a
paisagem já é
saudade.
É como estar num
filme ao contrário
eu passo
enquanto o filme está parado
a me ver.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Viajar

O melhor de viajar é que as coisas deixam de ser automáticas. Andar, olhar, comer sentir frio, calor, cheiro, tudo é encarado como uma grande novidade. Como ser (um pouco) criança de novo, reaprendemos a fazer as coisas mais simples e tudo parece aventura. Só que com a vantagem de conseguir olhar a criança de longe. Quem sabe até, brincar com ela.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

pessoa

ontem, antes de dormir lembrei da primeira vez que li Fernando Pessoa. Aqui em Triunfo, era uma tarde qualquer, num inverno qualquer nos anos 90 e eu aproveitava a calma da minha cama centenária. Tudo ficou em silêncio, a casa se acalmou, eu não ouvia mais a estrada. Foi como ficar apaixonada: dá um embrulho bom no estômago. Eu saí do quarto, olhei para aquela serra bonita e respirei fundo. E o mundo nunca mais foi o mesmo. Naquela mesma tarde aprendi o prazer de reler poemas. Acho que tudo que faço até hoje está inspirada por releituras daqueles poemas que me reescreveram naquela tarde qualquer de inverno.